A verdade em tempos de Trump

*Carlos Alves Müller

 Rudolph Giuliani não é um idiota. Ex-prefeito de Nova York (1994-2002), tornou-se famoso por sua política de segurança – “Tolerância Zero” – criticada por defensores dos direitos humanos, embora tenha obtido resultados expressivos que o transformaram em consultor internacional contratado para apresentar propostas para capitais problemáticas como Cidade do México e Rio de Janeiro.

Polêmicas são algo que acompanham a trajetória pública de Giuliani. Entre suas frases famosas está: “Você nunca concorda com nenhum candidato 100%. Eu não concordo 100% comigo mesmo”. Advogado do presidente norte-americano Donald Trump, Giuliani disse, no início de maio, que seu cliente reembolsou outro advogado, Michael Cohen (que acaba de ser condenado por vários crimes), por um caro acordo de confidencialidade com a atriz pornô Stormy Daniels. Entrevistado sobre o processo, Giuliani produziu, para espanto do âncora do programa de TV “Meet the Press” (rede NBC),  Chuck Todd, mais uma afirmação destinada a ser emblemática do atual governante dos EUA: “A verdade não é a verdade”.

Todd tem aprendido muito sobre jornalismo em tempos de Trump. Foi ele que, ao perguntar a Kellyanne Conway, conselheira do presidente recém empossado, por que o secretário de imprensa Sean Spicer, em sua primeira aparição no cargo, fora instruído a afirmar falsamente que o público que assistiu ao desfile presidencial havia sido “maior que nunca” (o que as fotos e vídeos reproduzidos por jornais e televisões desmentiam). Ele estava apresentando “fatos alternativos”, argumentou a irritada Conway.

Nunca antes naquele país, nem mesmo nos tempos em que o ex-macartista Richard Nixon ocupou a Casa Branca, o presidente e seus assessores foram tão ousados no ataque ao senso comum. De acordo com o monitoramento do jornal Washington Post publicado em 31 de julho, Trump fez 4.229 afirmações falsas ou enganosas em 558 dias – 7,58 por dia, inclusive domingos e feriados.

Para muitos analistas, inclusive grande número de (psic)analistas, o caso do presidente dos EUA é patológico. Para outros, o problema é diferente, uma questão de estratégia política. Menos de um mês depois da divulgação dos números do “Post”, em 28 de agosto Trump voltou sua artilharia no Twitter, agora contra o Google, afirmando que os resultados do buscador são “manipulados”. No melhor estilo paranoico afirmou que numa busca por “Trump News” encontrou apenas notícias da “Fake Media” como se refere a alguns dos principais veículos jornalísticos do país (CNN, Washington Post, The New York Times, etc), enquanto a cobertura da “mídia justa” – a que o apoia – seria ocultada. “Em outras palavras, eles têm armado para mim… Esta é uma situação muito séria. Será tratada!”, ameaçou com ponto de exclamação.

Notícias, falsas e amorfas

Trump usa a expressão “fake news” para desqualificar as notícias que lhe são desfavoráveis com quase tanta frequência quanto produz as suas. Como comentou Patrick Murray, diretor do Instituto de pesquisa de Monmouth, ouvido por Margaret Sullivan, colunista de mídia do Washington Post, a expressão se tornou amorfa. De fato, Trump tem sido muito bem sucedido em seu empenho de minar a confiança no jornalismo. Em consequência, disse Sullivan, agora “notícia falsa” pode significar quase qualquer coisa, o que significa dizer quase nada.

Há quem veja a questão com resignação. Seria uma decorrência inevitável da era em que vivemos – a era da “pós-verdade” – expressão apontada pelos Oxford Dictionaries como a palavra internacional de 2016. Isso ocorreu depois que seu uso aumentou cerca de 2.000% em relação ao ano anterior, no qual transcorreram as campanhas eleitorais dos EUA e do plebiscito pela saída da Grã Bretanha da União Europeia (Brexit). Segundo os responsáveis pelos dicionários, “pós-verdade” é um adjetivo “relacionado a ou denotando circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”.

O que o especialista ouvido por Sullivan aponta é um problema da maior gravidade. A razão disso, como observou Manuel Arias Maldonado, professor titular de Ciência Política da Universidade de Málaga, em artigo no jornal El País (29/03/17), é que estamos assistindo a uma perda do valor persuasivo dos fatos no debate público, de maneira que já não seriam determinantes para a configuração das crenças privadas. A “pós-verdade”, diz ele, nos indica que a própria noção de verdade, e mais concretamente de verdade pública, teria deixado de ter sentido.

A expressão “pós-verdade” pode ser recente, mas não o que ela significa, suas consequências e o debate filosófico subjacente. O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF) e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não domina a questão tecnológica, mas ao conduzir os preparativos do Poder Judiciário para a atual campanha eleitoral tinha clareza quanto ao que está em jogo. Referindo-se à “pós-verdade” durante o recente 28º Congresso Brasileiro de Radiodifusão, realizado em Brasília, afirmou categoricamente: “Depois da verdade não vem outra verdade, vem a mentira”.

No mesmo evento, Ricardo Gandour, diretor-executivo de Jornalismo da rede de rádio CBN, lembrou que o jornalismo contemporâneo tem consciência de suas limitações e, por isso, pretende honestamente ser “a busca permanente da verdade”. Por essa mesma razão, diversos autores se referem ao jornalismo como o “rascunho da história”. Nesse esboço pode haver erros por várias razões, entre as quais a falta de informações essenciais para a compreensão cabal dos acontecimentos, mas deve-se buscar a apuração precisa pelo menos dos elementos factuais.

A verdade muito além da nada vã filosofia

A questão da verdade é recorrente na história do pensamento e útil a quem pretenda entender o que está por trás da discussão atual sobre “pós-verdade”, fake new/notícias falsas e desinformação. “Classicamente”, ensinam Hilton Japiassú e Danilo Marcondes em seu “Dicionário Básico de Filosofia”, a verdade “se define como adequação do intelecto ao real… é uma propriedade dos juízos que podem ser verdadeiros ou falsos, dependendo da correspondência entre o que afirmam ou negam e a realidade de que falam”.

Mesmo o professor Nilson Lage, um teórico do jornalismo crítico em relação à imprensa contemporânea, parte do conceito de Heidegger “ao mesmo tempo simpático ao nazismo e o filósofo mais influente do século XX”, para quem, ainda conforme o professor brasileiro, a questão da verdade envolve “duas possibilidades: como adequação do enunciado à coisa… e a verdade como adequação da coisa ao enunciado”. Para Lage, a segunda possibilidade…

“… difunde-se no mundo atual, gerando paroxismos de consumo e a difusão de ideias independente do mérito e da pertinência. No plano político, o que talvez seja mais grave, tal entendimento gera uma espécie de fascismo disfarçado ou de fantasia democrática imposta pelo dinheiro ou pelas armas, associadas a estratégias de ‘fabricação do consentimento’ ou de ‘engenharia social’”.

Atualmente, muitos jornalistas e mesmo professores de jornalismo, seduzidos por um pós-modernismo mal digerido, adotam, fora de contexto, ideias de pensadores como Foucault, Rorty e Vatimo que, como aponta Maldonado, sustentam que “a verdade depende quase sempre do ponto de vista de quem a formula e deriva de um processo de construção — ou imposição — social mais que de sua correspondência com uma realidade exterior ao ser humano”. Outros vão mais longe no tempo e no equívoco e adotam, sem refletir, um Nietzsche ainda imaturo segundo o qual não existiria nenhuma verdade porque ela não é mais do que uma ilusão. Isso significa, logicamente, que a própria afirmação do filósofo não passa também de ilusão.

Para não começar com um mau Nietzsche e terminar com um impagável Giuliani, nada como uma boa Hanna Arendt e sua reflexão sobre “Verdade e Política”. Nesse ensaio, escrito após a celeuma causada por seu relato sobre “Eichmann em Jerusalém”, ela argumenta que “as verdades de maior importância política” são factuais.

“O contrário de uma asserção racionalmente verdadeira é ou erro e ignorância, como nas Ciências, ou ilusão e opinião, como na Filosofia. A falsidade deliberada, a mentira cabal, somente entra em cena no domínio das afirmações factuais; e parece significativo, e um tanto estranho, que, no longo debate acerca desse antagonismo de verdade e política, desde Platão até Hobbes, ninguém, aparentemente, tenha jamais acreditado em que a mentira organizada, tal como a conhecemos hoje em dia, pudesse ser uma arma adequada contra a verdade”.

Em tempos de Trump, valha-nos Hanna Arendt!

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