Nunca saberemos o que aconteceu nesta eleição, mas o que já sabemos…

Carlos Alves Müller

Nunca saberemos o que aconteceu nesta eleição. Nunca saberemos a profundidade e a amplitude da manipulação da informação e seu impacto sobre o comportamento do eleitorado. Mas o que já sabemos é gravíssimo e não haverá volta atrás. Não seremos os mesmos. Aliás, nem mesmo a manipulação será a mesma porque a forma e os meios pelos quais ocorre estão em constante transformação.

Os Estados Unidos são uma referência obrigatória. Não por colonialismo intelectual, mas porque é lá que a tecnologia é majoritariamente desenvolvida e aplicada e porque é onde as pesquisas sobre os seus efeitos também são estudadas de forma mais ampla e com mais recursos. No caso, também porque foi lá onde surgiram as primeiras e maiores evidências de como a manipulação da informação por meio das ferramentas tecnológicas, em particular a internet e as redes sociais, foram manipuladas com fins eleitorais.

Os pesquisadores já descobriram uma série de coisas a respeito de como a tecnologia foi utilizada para favorecer a eleição de Donald Trump. Isso não significa que fraudes tenham sido a  causa de sua vitória. O mais estarrecedor, porém, é que o efeito sobre o número de votos que ele obteve é, ao que tudo indica, o problema menor. Numa versão livre da célebre frase atribuída a Sócrates – “Só sei que nada sei”, à qual alguns especialistas atribuem o complemento “e tenho a vantagem sobre os que pensam que sabem algo porque sei o que não sei” – é que, no caso, quanto mais se sabe, mais se sabe que se sabe pouco. Mais: o que não se sabe aumenta a cada dia. Isso por duas razões: 1) o vai sendo conhecido permite vislumbrar coisas que antes nem se imaginava e 2) porque novas formas de manipulação são criadas constantemente.

É possível compilar o que se sabe sobre a manipulação das informações com fins eleitorais nos Estados Unidos na eleição de Trump, na Grã-Bretanha na votação do “Brexit” e no plebiscito da Irlanda sobre aborto, para ficar apenas nos casos mais conhecidos (que também estão ocorrendo no Brasil atualmente). Eis uma breve relação não exaustiva:

  • Notícias falsas, que sempre existiram, agora são produzidas em escala industrial influenciando o comportamento do eleitor incauto;
  • Imagens são manipuladas ou utilizadas fora de contexto com o mesmo fim das notícias falsas;
  • Perfis nas redes sociais são falsificados, “sequestrados” ou “mimetizados” (pela criação de falsos semelhantes aos originais) com os mesmos objetivos;
  • Depois de uma fase inicial em que a manipulação ocorreu de forma artesanal, acionada por indivíduos e “manualmente”, ela passou a ser feita por empresas altamente especializadas e por meio de sofisticados algoritmos, o que tornou a manipulação mais ampla, sutil e eficiente;
  • O que faz com que as pessoas acreditem nas informações manipuladas e ajam de acordo conforme desejam os manipuladores é um fenômeno ainda insuficientemente estudado – elas acreditam mais facilmente no que está relacionado a seus preconceitos e medos mais profundos do que na racionalidade da argumentação e sua coerência lógica;
  •   A manipulação mais eficiente não é a que leva as pessoas a agir de uma maneira diferente da que estariam propensas a fazer, mas a fazê-las duvidar de suas posições e, num segundo momento, deixar de agir daquela maneira e mais adiante agir de maneira diferente, eventualmente da maneira contrária. Exemplo. 1) ficar em dúvida sobre o voto num certo candidato, 2) decidir não votar no candidato, 3) votar no candidato oponente ao primeiro;

Houve um momento em que “notícias falsas” foram o inimigo público nº 1. Hoje são um mal menor e as imagens manipuladas estão em vias de se tornar um “game” ao estilo “procurando wally” – versão onde está a evidência de fraude nesta imagem? A conscientização das pessoas e o trabalho de checagem desenvolvido por algumas empresas jornalísticas e ONGs vem ajudando a reduzir o impacto das formas mais torpes de manipulação. A matéria “Como se espalhou a versão fake sobre imagem do protesto contra Bolsonaro no Rio”, publicada no dia 1º de outubro, é parte do importante trabalho visando a denunciar as manipulações e, ao mesmo tempo, um mostruário das manipulações mais frequentes simplórias.

O que foi descoberto mais recentemente é algo que está sendo utilizado em larga escala com desdobramentos que vão além do comportamento eleitoral imediato. As novas formas de manipulação, sem exagero, estão mudando não só a forma como as pessoas se relacionam, mas alterando o próprio funcionamento das sociedades nos planos político, econômico e social com consequências imprevisíveis.

A comunicação da causa contra a causa

Jaron Lanier, um especialista em informática, além de músico e artista gráfico, criador da expressão “realidade virtual”, foi apontado pela Enciclopédia Britânica como um dos trezentos inventores mais importantes da história. Ele tem alguns livros muito críticos sobre os rumos do desenvolvimento tecnológico atual. O mais recente, lançado em maio deste ano, ainda não tem edição brasileira, mas já foi publicado em espanhol. Seu título original é “Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Right Now” (Dez argumentos para apagar tuas redes sociais já).

Ainda que o leitor não se disponha a aceitar suas recomendações, as dez razões apontadas por Lanier merecem ser conhecidas porque são um minucioso e assustador painel do que se sabe e do que está sendo descoberto, não apenas sobre os efeitos da manipulação das informações, mas sobretudo sobre o impacto das redes sociais na sociedade contemporânea.

Ten Arguments…, diferentemente dos anteriores, curiosamente ecoa a literatura de autoajuda, embora trate com profundo conhecimento a problemática tecnológica.  Entretanto, mesmo lido com ceticismo, contém informações relevantes sobre como as redes sociais estão afetando nossa vida. No caso do comportamento eleitoral, ele analisa o que ocorreu com o movimento “Black Lives Matter” (as vidas negras importam) que começou nos EUA, em 2013, e se difundiu internacionalmente pelas redes sociais após a absolvição de George Zimmerman no assassinato do adolescente negro Trayvon Martin. O que inicialmente foi uma ação meritória e democrática, pela via dos algoritmos e de interesses políticos de ultradireita e racistas, foi usado contra os propósitos originais.

“Os ativistas negros foram objeto de catalogação e estudo meticulosos. Que palavras precisas os excitavam? O que os incomodava? Que pequenas coisas, histórias, vídeos, o que fosse os mantinha colados [às plataformas digitais] … O que os tornava suscetíveis a mensagens de modificação de conduta? O objetivo não era reprimir o movimento, mas ganhar dinheiro”.

Esse era o objetivo das plataformas e de redes sociais como Facebook que, alegadamente e com alguma razão, não tinham interesse político no assunto, limitando-se a desenvolver os algoritmos que permitiam catalogar os simpatizantes da causa e ganhar dinheiro vendendo as informações. Ao fazê-lo…

“De maneira mecânica e cega, se descobriu e cultivou uma população de supremacistas brancos e racistas latentes que até então não haviam estado bem identificados, conectados o empoderados, num princípio com o único objetivo de obter deles benefícios econômicos de forma automática e dissimulada”

Já seria suficientemente imoral e repugnante que ferramentas tecnológicas que levaram a humanidade a um nível de comunicação jamais imaginado, fossem utilizadas para promoção e organização do ódio. Mas não ficou nisso.

“Um ano depois das eleições, a verdade começou a vir à luz… algumas das mais destacadas contas de ativistas ‘negros’ eram na realidade cobertura para a guerra de informação russa [e não apenas russa]. Aparentemente, o que os russos [novamente e não apenas os russos, mas também os ultradireitistas partidários de Trump] pretendiam era exasperar os ativistas negros o suficiente para reduzir seu entusiasmo na hora de votar por Hillary. Reduzir estatisticamente a participação eleitoral”.

Algo semelhante ocorreu com os posts de Bernie Sanders, o rival de esquerda democrata de Hillary e seus partidários: foram replicados, manipulados e difundidos pelos apoiadores de Trump. Não se tratava de convencer esquerdistas ou negros a trocarem o voto na candidata democrata pelo voto no republicano, mas de levá-los a não votar – afinal, Hillary faria parte da elite branca, do “establishment”, era o raciocínio implícito. Seria suficiente. Comparando-se os dados da votação de Hillary com os de Obama na eleição anterior, isso aparece claramente. Foram os votos a menos desses segmentos (negros, latinos, pobres) que custara a ela a eleição.

Não é difícil buscar no Brasil casos semelhantes ou pelo menos casos que têm tudo para ser semelhantes, inclusive na eleição deste ano. Nunca saberemos ao certo como foi, como está sendo. Nem um especialista como Lanier saberia dizer…

“Nunca saberemos que experiências com algoritmos foram realizadas para reduzir ou incrementar a participação em determinadas eleições, ou as lições que foram extraídas de tais testes. Talvez o uso de certas palavras nos títulos das notícias, ou a colocação de determinados adjetivos junto às mesmas sobre alguns personagens famosos em particular fizeram com que aumentasse a possibilidade de que alguém se indignasse, mas só se essa pessoa gostasse de uma marca de carro específica. A única coisa que podemos intuir é que uma empresa cujo funcionamento se baseia em estatísticas introduziu contínuas adaptações para otimizar seu rendimento”.

Quanto ao papel diretamente desempenhado pelas empresas que mantém as plataformas, no caso o Facebook, Lanier ressalva que:

“Nada disso significa que o Facebook prefira uma classe de eleitor a outra. Isso é coisa de seus clientes, que não somos nós, os usuários. O Facebook não tem porque saber o que está acontecendo. Para uma empresa de redes sociais, é preferível não saber o que acontece, porque assim ganha o mesmo dinheiro, mas com menos culpabilidade”.

Não por acaso, este é o principal argumento das plataformas de tecnologia quando cobradas sobre o conteúdo nelas disponível: São “neutras”, a responsabilidade é de quem posta, compartilha e utiliza suas informações e dados. Numa tentativa de amenizar a pressão que vêm sofrendo, especialmente a partir da União Europeia, para que façam mais e melhor seu trabalho, assumindo uma responsabilidade que se torna cada vez mais evidentemente sua, as plataformas têm anunciado algumas medidas.

Em julho e em setembro deste ano, o Facebook anunciou em comunicado de imprensa “uma série de ações adotadas para proteger a eleição no Brasil, incluindo iniciativas de combate à desinformação, maior transparência aos anúncios na plataforma e produtos de engajamento cívico”. Dias depois do segundo comunicado, em 28 de setembro, reagindo ao que a imprensa já tornara público – não por investigação própria, portanto – distribuiu outro “press release” informando:

“Recentemente, foi noticiado que uma empresa brasileira de marketing digital chamada Follow estaria recrutando pessoas no Brasil para distribuir conteúdo político que simula ser orgânico para nossa comunidade.

Após uma investigação, hoje nós removemos 11 Páginas e 42 Perfis diretamente associados com a atividade da Follow por violarem as nossas políticas de autenticidade”. [grifos meus]

Considerando as dimensões da operação brasileira do Facebook, o número de usuários (127 milhões de usuários ativos mensais no Brasil no primeiro trimestre deste ano, conforme a Folha de S.Paulo de 18/07/18) e as condições em que se desenvolve a atual campanha eleitoral, a insignificância dos números mencionados permitem que se deduza que, também sob esse aspecto, não se sabe e nunca se saberá a profundidade e a amplitude da manipulação da informação e seu impacto sobre o comportamento do eleitorado.

 Quando a realidade e a verdade perdem sentido

A segunda grande constatação de que a manipulação da informação que circula por meio das plataformas digitais afeta radical e amplamente o comportamento eleitoral e, principalmente, todo o funcionamento da sociedade, não apenas no Brasil, é a negação do que seja “real” e “verdade” e sua substituição pelo que é “conveniente”. Sob esse aspecto, a tese da assessora de comunicação de Trump Kellyanne Conway, mencionada em texto anterior para este site, sobre “fatos alternativos”, não foi uma invenção pessoal, mas o batismo de um comportamento que vem se universalizando.

Subitamente nos deparamos com pessoas que se consideram sensatas e que as consideramos como tal afirmando coisas como: “essa é a sua verdade, a minha é outra”, como se vivêssemos em mundos paralelos, mas que seguem lógicas distintas. Situações como essa fazem lembrar o genial cronista (e provocador) Nelson Rodrigues.

Numa crônica antológica, Nelson Rodrigues atacava “Os idiotas da objetividade”. O tema seria esmiuçado numa Entrevista a Geneton Moraes Neto, gravada em 1 de maio de 1978:

“O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental…

O relato dessas banalidades é tarefa que cabe aos ‘idiotas da objetividade’ – estes pobres seres que só são capazes de enxergar a rala superfície dos fatos”.

Nelson Rodrigues morreu em 1980. Não conheceu a internet, portanto.

Se estivesse vivo, certamente lhe dedicaria crônicas deliciosamente ácidas. E, dramaturgo que também era, diante de um tempo em que as plataformas tecnológicas e as redes sociais tornam quem quer que tenha acesso à internet e às redes sociais produtores de “conteúdo” – o que raramente tem relação com jornalismo – talvez substituísse o personagem “idiota da objetividade” pelo “idiota da verdade pessoal”. Afinal, como disse ele antes de certo ex-ministro: “Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia”.

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