Os fatos fazem a diferença

Francisco Viana*

As fake news são como camadas geológicas. Elas podem ser classificadas em diferentes níveis. Existem as fake news de interesse paroquial, por exemplo, a falsa notícia de que uma autoridade que fere interesses dos senhores locais vai ser transferida ou que o plano de assistência médica municipal ou Estadual será privatizado. Existem as fake news de caráter econômico, como por exemplo,  as que visam indústrias, empresas e instituições acreditadas. Existem as fake news políticas, expressas, por exemplo,nos perfis falsos produzidos por robôs. E existem as fake news que induzem ao acirramento dos preconceitos, a intolerância e o ódio. As fake news que creditam a personalidades textos ou frases falsas, como por exemplo ao Papa Francisco. E, assim, sucessivamente.

Essas  múltiplas versões das  fake news, que elastecem o conceito, emergiu de debate inédito promovido pela Rádio Andaiá, da Rede Baiana de Rádio. Se prolongou por três horas e bateu recorde de audiência. Além de jornalistas, o evento reuniu um filósofo, um juiz eleitoral é um promotor público. Alcançou mais de 250 cidades da Bahia e, também, de todo o país por meio de Facebook. Foi a primeira vez que um acontecimento de tal dimensão ocorreu numa rádio do interior. O ideal é que inspire novos debates.

A pergunta mais recorrente foi: como combater as fake news. Como as diferentes versões das notícias falsas, as respostas variaram. No caso do jornalismo, sugeriu- se duas medidas práticas: maior rigor nas apurações e evitar todo sensacionalismo; no caso do cidadão, sugeriu-se evitar replicar notícias sem a certeza de que não são verdadeiras, o que se tornou muito comum nesse tempo de pós-verdade. Somaram-se as recomendações para verificar as fontes das notícias, não ler apenas as manchetes e até a verificação do português. Um texto com muitos erros pode ser um dos indícios de que é falso. Ou seja, contra as fake news, mais comunicação.

As ideias se multiplicaram. Os exemplo também. Fixaram-se em dois casos. O primeiro é que as fakes news quase sempre estão muito próximas da verdade. A segunda é que, de uma maneira geral, desestabilizam. Um jornalista lembrou que em Santo Antônio de Jesus, recentemente, durante todo o dia chegou à redação da rádio Indaiá a notícia de que algumas pessoas tinham sido assassinadas em um dos principais bairros da cidade. Na realidade, tinham morrido quatro ratos.

Dai, a necessidade de uma apuração cuidadosa antes de publicar uma notícia. As fake news estão, em síntese, exigindo que o jornalismo seja repensado, tornando imperativo não apenas o culto à verdade factual, mas um foco crescente no seu papel educacional. Esse o verdadeiro desafio: o combate às fake news é um problema da atualidade a exigir a mobilização de todos, já que como indivíduos somos poderosos, mas cabe à imprensa afirmar-se  como paradigma de credibilidade.

A divulgação de notícias, na era da internet, não exige só rapidez. Sobretudo, qualidade – compromisso com os fatos – e credibilidade. Isso fará a diferença.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP).

Selecionamos outros textos para você