Por que votar?

Francisco Viana*

Na Odisséia, no canto XII, Ulisses, o Odisseu,  é obrigado a fazer uma escolha indesejada para seguir sua rota de retorno à Ítaca: ou se aventura a seguir pela rochas ondulantes, por onde nem mesmo os pássaros conseguiam passar, ou leva seu barco pelo estreito onde tinha de uma lado , Cila, um monstro imortal de seis cabeças e, de outro , Caribide, outro monstro imortal, que tragava as embarcações que o desafiava num redemoinho. Ulysses preferiu seguir pela lado do estreito dominando por Cila: perdeu seis marujos, mas salvou o barco e a vida dos demais tripulantes.

Ulysses, Cila e Caribde são metáforas que se aplicam, à perfeição, nas próximas eleições presidenciais. Como, é certo, muitos eleitores usarão como desculpa para não votar a inexistência de candidatos que os represente, é preciso ter consciência de que não podem ficar inertes e que é melhor fazer escolhas do que não votar. Pois quem vota pode expressar sua vontade e quem não vota deixa de manifestar-se, transferindo para outro a responsabilidade pela sua escolha.

Há mais razões. Eleições livres, em todos os níveis, são uma conquista das gerações das décadas de 60, 70 e 80, do século passado, que custou muitas vidas. É um patrimônio democrático que se renova e se amplia a cada eleição direta. Além disso, candidatos ideais para a totalidade dos eleitores jamais existirão (esse o lado Sila de cada eleição) e por isso é preciso votar. Seguir em frente. Às vezes, como o mito de Ulysses, não podemos ser hesitantes. Precisamos fazer escolhas. Agir. Precisamos sonhar, claro que sim. Mas não podemos ser sonhadores ineficazes. É preciso ter em mente algo mais do que candidatos, que são passageiros, e, sim, o exercício do voto que é permanente. E deve, pelo menos em tese, durar para sempre. Esse o acontecimento realmente eficaz e real: temos uma democracia eleitoral consolidada. E é dever de todos votar.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política ( PUC-SP ).

 

Selecionamos outros textos para você