Notícias da liberdade de escolha

Por Francisco Viana*

“Vivemos em uma época sem paralelo com qualquer outra no cultivo da ideia de oportunidade individual. Durante a maior parte da história as pessoas viveram e morreram no mesmo degrau da escala social. A profissão dos pais determinava a dos filhos e não existia perspectiva de progresso. Os mercados financeiros eram primitivos e não havia fácil acesso ao capital . As descobertas tecnológicas surgiam a cada duzentos anos, e as mudanças políticas vinham com frequência ainda menores”, escreve Alain de Botton, no livro Notícias – Manual do Usuário.

Os leitores de Botton, e eles são milhões em mais de 30 países, vão amar esse pequeno livro. Notícias – manual do usuário, fala de um dos temas mais palpitantes da atualidade, indissociável da mecânica visível ou invisível da vida. Notícias que abrem caminho para a orientação segura sobre a vida real – da política à gastronomia, da economia à vida amorosa das celebridades – e também para o “vício” da informação em tempo real. Um dos males do nosso tempo, neste mundo de desinformação e pós-verdade.

É um dos aprendizados naturais desde os primeiros passos da infância quando somos despertados para a força das palavras e das imagens. Como desdobramento, os meios de comunicação modelam nossa alma, tornando-se potente meio de educação de massas.

Ele faz observações como estas:

O acelerado zumbido do noticiário penetrou no âmago de quem somos… Talvez a sociedade precise de ajuda para lidar com o que o noticiário vem causando a todos nós: inveja e terror, alegria e frustração, tudo aquilo que nos tem sido dito e que, no entanto, desconfiamos às vezes seria melhor nunca ter sabido.”

O manual sobre o noticiário, elaborado por Botton, se propõem, na realidade, a ser um guia prático de novo tipo. Como foram os estadistas e atletas olímpicos na Antiguidade, os santos católicos na Idade Média e o que hoje se tem como paradigma as celebridades. As questões centrais são: quais são as notícias que realmente interessam? Como são produzidas? Para que servem? São, alerta ele, como as origens das qualidades que realmente admiramos nos personagens que consideramos como celebridades.

A esse respeito, Botton afirma: “As celebridades têm as mesmas vulnerabilidades que nós”.  Não são aparições mágicas, mas gente de carne e osso, “seres humanos comuns que realizam coisas extraordinárias graças ao trabalho duro e o pensamento estratégico”. Esse o mérito de Botton: ele faz um tipo de autoajuda, mas não nega e tem densidade tal como na origem do termo 1859, cunhado pelo escocês Samuel Smiles (1812-1904) no livro homônimo-Autoajuda. Só que agora o foco é o noticiário, como argumenta Botton citando Hegel, é o fator de modernização da sociedade, substituindo a religião.

Filósofo do cotidiano, Botton, suíço que estudou na tradicional universidade inglesa de Cambridge, 59 anos, defende a tese de que o universo da informação é infinito e, por isso, precisamos escolher as notícias com sabedoria. Não só porque corremos o risco de cair nas armadilhas criadas por computadores, com suas notícias personalizadas, como pela sedução do novo que geralmente é considerado importante, embora nem sempre o seja.

Há também, com relação ao noticiário, reações a refletir como o tédio, a indiferença, a culpa.  “O problema com os fatos é que hoje não faltam exemplos dignos de crédito”, ensina Botton. “A questão não está em precisarmos de mais fatos, e sim de não sabermos o que fazer com eles. A cada dia o noticiário libera uma nova enxurrada” …

Contra a abundância de informação, ele recomenda longas viagens sem nada para ler, nem imagens para ver ou sons, para refletir. E equilibrar os contatos com as constantes mudanças, dar um alívio na impressão, alimentada pelo noticiário, de que vivemos em uma época de “importância sem igual, com nossos tumultos, guerras, dívidas, crianças desaparecidas, festas de estreia de alguma coisa, ofertas públicas de ações e mísseis”.

Com Notícias, Alain de Botton chama mais do que atenção para a vasta liberdade de escolha do noticiário nas sociedades democráticas. Ele fala da necessidade de ócio da mente para que possa parar a torrente do noticiário e refletir, no melhor estilo do que fez no passado o filósofo inglês Bertrand Russel com seu livro Elogio ao Ócio, ao dizer que havia trabalho demais no mundo e que era preciso parar.

Assinala de Botton, na última página do livro, ao abordar o sensível tema da variedade e abundância do noticiário: “Uma vida próspera exige a capacidade de reconhecer quando o noticiário não tem mais nada de original nem importante a dizer. São os períodos em que deveríamos recusar qualquer vínculo imaginativo com estranhos, em que devemos deixar que outros governem, triunfem, fracassem, criem ou matem, na certeza de que temos  nossos próprios objetivos a honrar no pouco tempo que ainda nos resta.” É o que ele quer dizer: as mesmas notícias que constroem o mundo são as notícias que alienam. E, portanto, precisam de uma pausa. Pausa para reflexão.  Pausa para um saudável balanço das expectativas e possibilidades da vida no mundo atual. Uma vida em que o noticiário pode ser uma espécie de laboratório da vida: ajudar a compreender os erros dos “nossos semelhantes mais desventurados” e não voltarmos a repeti-los. É esse lado da moeda que de Botton quer colocar em pauta. E faz força para conseguir.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política( PUC-SP).

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