Sadegh Zibakalam ganha Prêmio Liberdade de Expressão da DW

“Acho que meu crime é que, numa entrevista à Deutsche Welle, expressei uma opinião política que era contrária à opinião do governo”, comenta o cientista político iraniano Sadegh Zibakalam. “Quando o governo diz que os tumultos foram encomendados pelos inimigos do Irã, ele espera que todos sigam o exemplo, repetindo essa opinião.“

Ameaça de exclusão social

Sadegh Zibakalam não obedeceu. Em janeiro último, ele falou à redação persa da DW sobre a agitação no país. Na ocasião, dezenas de milhares tinham ido às ruas para protestar contra a política econômica e todo o sistema político do Irã. O renomado politólogo expressou compreensão pelos manifestantes e contestou as alegações do governo. “Eu disse que os protestos foram organizados e realizados pela população iraniana, que ela não foi influenciada por ninguém fora do Irã, que nenhuma potência estrangeira estava em cena”, reiterou Zibakalam em nova entrevista à DW.

Por tais declarações o cientista político de 69 anos está ameaçado de 18 meses de prisão. Em março o Tribunal revolucionário do Irã o condenou. Caso o veredicto seja confirmado, Zibakalam não somente irá para a cadeia, mas também será submetido a dois anos de “exclusão social”. Nesse período, ele não poderá conceder entrevistas, publicar artigos, nem realizar nenhuma atividade nas redes sociais. Zibakalam recorreu da sentença, mas a decisão final ainda está pendente.

Em tal situação, muitos prefeririam se recolher e não chamar a atenção até a proclamação da sentença, mas essa não parece ser uma opção para o cientista político. A punição iminente não o impede de se manifestar de forma crítica e pública no Twitter e Facebook – diariamente. “Se a Justiça me disser: ‘Professor Zibakalam, o senhor não pode mais dar entrevistas’, então vou obedecer. Mas eles não o fizeram. Por esse motivo, vou esperar até que o tribunal de apelação anuncie a sua decisão”, explicou o cientista político.

Zibakalam, “criminoso reincidente“

Para a Justiça iraniana, Zibakalam é considerado um criminoso reincidente. O professor da Universidade de Teerã é um dos intelectuais e especialistas políticos mais conhecidos do país.

Simpatizante do bloco reformista em torno do presidente Hassan Rohani, ele é notório por seus debates acalorados com personalidades linha-dura. Nessas ocasiões, sempre criticou as posições do governo sobre temas de política interna e externa. Em fevereiro defendeu o reconhecimento pleno de Israel como Estado, se as Nações Unidas também o fizessem.

Zibakalam estudou Ciências Políticas na Universidade de Bradford, no Reino Unido. Sua tese de doutorado foi sobre “a revolução islâmica e a política do Ocidente”. Ao visitar seu país natal em 1974, ainda durante os estudos, foi preso pela polícia secreta do xá, por “sabotagem” e “propaganda”.

Depois da Revolução Islâmica, no início da década de 1980, ele retornou ao Irã. Alguns anos depois iniciou sua carreira na Universidade de Teerã. Em 2000 concorreu nas eleições parlamentares na cidade de Zanjan, no noroeste do Irã, porém sua candidatura foi invalidada pelo Conselho de Guardiões, já antes do pleito.

“Não vou silenciar“

O atual processo não é o primeiro enfrentado por Zibakalam. Em junho de 2014, ele foi condenado a 18 meses de prisão devido a críticas ao programa nuclear iraniano. Na época, não teve que ir para a prisão, pois no processo de revisão sua pena foi comutada em multa.

Assim, Zibakalam está bem ciente das possíveis consequências de sua crítica ao governo. No entanto, pretende continuar se manifestando, a menos que a Justiça o proíba: “Se eu quisesse decidir não mais falar, teria feito isso três anos atrás, quando fui punido por dar minha opinião sobre a indústria nuclear, que era contrária à opinião do governo.“

Por sua coragem de criticar repetidamente o governo, Zibakalam recebe agora o DW Freedom of Speech Award 2018, o prêmio de liberdade de expressão da emissora. “O prêmio visa encorajar a sociedade civil no Irã e, ao mesmo tempo, criticar o governo pela decisão de perseguir Zibakalam por expressar sua opinião”, declarou o diretor-geral da DW, Peter Limbourg.

“Estou muito honrado”, confirmou Zibakalam, acrescentando modestamente: “Mas eu acho que há muitos homens e mulheres iranianas que sofreram muito mais para fazer valer seu direito à liberdade de expressão. Há centenas de iranianos lá fora que também mereceriam esse prêmio.”

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Fonte: A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

Autoria Rahel Klein

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