Dica da Semana

Dica da Semana 630 345 Instituto Palavra Aberta

a-esperanca-do-mundo-_-cadernos-_-foto-reproducaoPor Francisco Viana – Sob diferentes ângulos, Albert Camus escreveu Esperança do Mundo, um dos seus cadernos que versa sobre a liberdade, a liberdade de criar e de enfrentar os dilemas da criação.

Uma obra de especial importância que fala da liberdade de escolha entre o suicídio e a vida, com a recomendação de que a opção pela vida significa a escolha, também, de construir uma vida relevante. O livro de Camus data de 1941 e procura situar a questão da vida e da morte no contexto da filosofia do “absurdo” , segundo ele, que envolve o enigma das questões humanas.

Entender o conceito de liberdade e de vida relevante passa pela leitura do primeiro dos seus famosos cadernos (1935-1937), Esperança do Mundo, que começaram a ser escritos quando Camus estava com apenas 22 anos, empreendia as primeiras viagens pela Europa e o Mediterrâneo, descobria a Argélia, a África do Norte, Paris, a região da Toscana, e fazia reflexões inaugurais sobre o relacionamento humano. Escrevia autênticas pérolas do sentimento, a exemplo de que “perdemos o hábito de ver o essencial de um rosto”, “eu só conheço uma obrigação: a de amar” e “quando é necessário, um homem tem muito mais força do que parece”.

O que Camus entende por liberdade?

Nada que se relaciona com a noção hedonista de libertinagem. Mas, pelo contrário, a liberdade é aquela que “nos permite viver sob regras, retornar às bases de um pensamento que evolui sem abandonar suas origens, estabelecer os limites exigidos pela criação – que é a sua verdade de conduta, como ele mesmo determina: anotar todos os dias neste caderno. Em dois anos escrever uma obra. Por conseguinte, o impulso de escrever encontra nos cadernos a possibilidade de tatear uma liberdade desconhecida entre a efusão de criar e o constante sentimento de insuficiência perante a obra por vir.”

A interpretação da liberdade, segundo o famoso escritor francês, consta do posfácio escrito por Raphal Araújo e Samara Geske, ambos da Universidade de São Paulo, que pesquisaram os nove cadernos escritos por ele entre 1935 e 1959 para dar suporte a suas obras, que podem ser vistas como os bastidores do pensamento e da criação ou um laboratório literário. Sob diferentes ângulos, uma versão original da liberdade, “a de criar, de enfrentar os dilemas da criação, e a liberdade de reconhecer que, devido as dificuldades da vida, nem sempre é possível ajustar nos atos à visão que se tem das coisas”.

Esperança do Mundo é um conjunto de reflexões singulares que podem servir de chave para a compreensão de livros de Camus como O mito de Sísifo, O estrangeiro, A peste e O primeiro homem, todos marcados por vivo intimismo e permeados pela procura da liberdade, como registram seus sentimentos ao descobrir a morte e a beleza da vida, o desespero e a alegria, a vida “sem o sal e a pedra quente”, a vida como “eu gosto e desejo”, a vida onde se descobre pela primeira vez o sentido da palavra felicidade: “Hoje não é como uma hesitação entre sim e não. Não é revolta diante de tudo o que não são lágrimas e sol. Sim para a minha vida da qual eu sinto pela primeira vez a promessa por vir (…) a liberdade absoluta diante do meu passado e de mim mesmo. Aí está a pobreza e a única riqueza. Como se eu recomeçasse a partida, nem mais feliz, nem mais infeliz. Mas com a consciência de minhas capacidades, o desprezo de minhas vaidades e esta febre, lúcida, que me lança diante do meu destino.”

Essas palavras, Camus anotou no caderno em 15 de setembro de 1937. Permanecem atuais. Refletem a descoberta da beleza e da dureza do mundo. Revelam que a procura da liberdade é a verdade e a esperança do mundo. Pois “o homem se determina ao longo da sua vida. Conhecer-se perfeitamente é morrer. Vida e morte: uma mesma liberdade de escolha, uma única relevância: a opção pela vida.”

Francisco Viana é doutor em Filosofia Política (PUC-SP)