Educação e jornalismo se aproximam para tentar conter avanço da desinformação

Patrícia Blanco*

“Não assisto mais a telejornal para não ficar deprimido”. “Não leio mais jornal, porque não aguento mais tanta notícia ruim”. “Parei de assinar aquela revista, pois ela é de esquerda”. “Parei de assinar aquele jornal por ele ser de direita”.

Quem nunca ouviu uma das frases acima? Essas e tantas outras passaram a fazer parte do nosso cotidiano. Entre elas, a que mais roda o mundo nas telas dos nossos smartphones é a famosa “isso aquele veículo não mostra”.

Mas será mesmo que tudo o que vem da imprensa é tendencioso ou tem algum viés político-partidário? Será mesmo que somos pobres vítimas da manipulação em massa dos poderosos de plantão que querem que acreditemos que há corrupção no Brasil?

A imprensa passa por uma crise sem precedentes e por inúmeros fatores. A mudança na forma como se consome informação e a alteração do modelo unidirecional para a comunicação multidirecional propiciou uma ruptura na forma de oferecer notícias. Outro fator que vem transformando a vida nas redações é a chamada pulverização de autoria. Passamos todos a ser “prosumers” — consumidores e ao mesmo tempo produtores de conteúdo.

A falta de letramento informacional, a queda na qualidade dos profissionais e o alto índice de analfabetismo funcional contribuíram para o cenário atual, somados aos constantes ataques à credibilidade dos veículos de comunicação e à violência contra os profissionais de imprensa.

Vimos crescer nos últimos anos o vírus da desinformação. Embora o fenômeno não seja novo, esse vírus popularmente chamado de fake news passou a fazer parte das nossas preocupações a partir das eleições norte-americanas em 2016.

Foi também em 2016 que o dicionário Oxford elegeu como palavra do ano o verbete “pós-verdade”, cujo significado é “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”. Ou seja, quando crenças e ideologias superam os fatos.

Ora, se o jornalismo é baseado na verdade factual e as pessoas passaram a acreditar em crenças e ideologias em detrimento dos fatos, qual seria o seu papel na sociedade?

Por muito tempo, acreditou-se que os leitores e consumidores de informação sabiam como funcionava a prática jornalística, em todas as fases do seu processo: pauta, apuração, redação, edição, publicação etc. Mas a verdade é que precisamos contar para esse público quais os métodos seguidos por um jornalista profissional. Está na hora de “abrir a cozinha” do jornalismo e “quebrar os tabus” da profissão. Mostrar o passo a passo, os critérios adotados, os manuais criados pelos veículos, quem são os autores das matérias, quem são os proprietários das empresas, quem financia os veículos. Tudo de forma transparente para que se possa entender o funcionamento da imprensa.

É preciso educar o leitor para o consumo de notícias e dar um passo adiante no que entendemos como leitura crítica da mídia. É aí que entra a educação midiática, que começa a fazer parte do dia a dia de redações e de escolas, respaldada principalmente pela BNCC — Base Nacional Comum Curricular dos ensinos fundamental (6º ao 9º anos) e médio, obrigatória a partir de 2020.

O texto da BNCC do ensino fundamental, por exemplo, é dividido por competências gerais que consideram conhecimentos, habilidades, atitudes e valores fundamentais para a vida em sociedade no século 21. Algumas dessas competências referem-se à fluência digital e compreendem as habilidades necessárias para analisar e publicar informações no ambiente digital de forma crítica, ética e responsável.

Mas é no campo jornalístico — midiático, dentro da área de Língua Portuguesa, que o ensino da educação midiática ganha espaço e profundidade. É onde o aluno terá contato com ferramentas que farão com que ele aprenda a questionar fontes de dados, suspeitar da procedência de uma informação, manusear os diferentes gêneros textuais e dominar o conceito de credibilidade, entre outras habilidades que transformam o ato de ler em algo que exige interpretação, criticidade, autonomia e até uma pitada de investigação, nos mais diferentes tipos de plataformas, analógicas ou digitais.

Dominar as novas ferramentas e linguagens e formar novos leitores (e escritores) em meio a um mundo acometido por desinformação são grandes desafios, porém podem se transformar em realidade a partir do momento em que tivermos a consciência de que educar para a informação é uma decisão nossa como sociedade.

Os desafios são imensos: é preciso disseminar o conceito, unificar o termo, formar professores. Sem contar o desafio imposto pelas dimensões brasileiras e pela diversidade de agentes envolvidos. É um projeto de longo prazo que exige a mobilização de muitos agentes: professores, gestores educacionais, formuladores de políticas públicas, membros da academia, jornalistas e veículos de comunicação.

A boa notícia é que estamos vendo emergir iniciativas importantes que visam à implantação da educação midiática em larga escala. É o caso do Movimento Inova Educação, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, que oferecerá a todas as escolas estaduais de ensino fundamental e médio, a partir de fevereiro de 2020, a eletiva “Muito Além das Fake News”.

Elaborada em parceria com o EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta, a eletiva irá abordar a forma como o mundo da comunicação se organiza e os mecanismos de produção e circulação das informações — do jornalismo profissional aos novos formatos possibilitados pela internet, além de oferecer conteúdo que prepara o aluno para participar do ambiente informacional de forma segura.

A conexão entre educação e jornalismo é imprescindível, e alguns veículos já perceberam a importância de se discutir o tema, criando espaços para tratar da educação midiática. O Estado de S.Paulo tem o Estadão na Escola, que oferece dicas para o professor utilizar matérias jornalísticas como material de apoio em suas aulas. Além das sugestões, o veículo abriu espaço para que o jornalista responsável pela matéria conte como foi o processo de produção, mostrando os métodos utilizados. Ou seja, abriu espaço para ensinar como se faz jornalismo e, com isso, reforçar o seu papel para a sociedade.

Há muito o que fazer em busca de uma sociedade educada midiaticamente, formada por leitores críticos e independentes, e também para valorizar o jornalismo profissional e o papel da imprensa. Mas um não caminha sem o outro, ambos fazem parte de um ciclo virtuoso: o cidadão mais crítico vai exigir um jornalismo de maior qualidade e, nesse processo, ganham todos.

Dar força ao jornalismo profissional, independente e plural é urgente. Os ataques à imprensa não são novos. A imprensa sempre foi criticada, e isso não irá mudar e não deve mudar. A crítica é fundamental para a melhoria do jornalismo.

A realidade é que nunca se precisou tanto da imprensa. E essa constatação é global, assim como o desafio de educar a sociedade para o consumo de informação como forma de melhorar o ambiente informacional e, com isso, combater a onda da desinformação que tanto nos afeta, seja no âmbito político, cultural ou social.

*Patrícia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta.

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