“Educação Midiática permite escola “preparar estudante para a vida”

Alexandre Le Voci Sayad

Em tempos de polarização cultural e política há uma unanimidade – nada burra – no campo da educação. “A escola deve preparar para a vida”. Essa é uma máxima antiga e duradoura que sempre ocupou algum espaço no campo pouco preciso dos desejos de conservadores ou progressistas. Impossível achar quem seja contra. Chega a ser um mito genérico, perseguido por daqueles que sonham com dois elementos muito simples, sem raciocinar muito sobre eles: em uma extremidade a escola (não importa de que tipo) e, em outra, a vida (também sem muita definição em termos de como ela deveria ser).

Ao dissecar o tema com cuidado e tempo, há uma infinidade de componentes metodológicos, estruturais, filosóficos e políticos que respondem algumas questões a quem quiser compreender melhor esse enigma popular. Traduzindo para o que podemos estruturar na prática, há dois pontos que, acredito, sejam centrais. O primeiro é dogmático: a escola deve nos deixar aptos para viver de forma criteriosa e saber interpretar quando a vida nos ameaça, ou potencializar o que nos oferece de bom. Já o outro é paradoxal quando focamos na preposição “para” que antecede “a vida”: a vida só acontece quando estamos fora da escola ou longe dela?

Escrutinando o primeiro ponto: dentro da escola, experiências educacionais formais no mundo têm mostrado que o elemento chave que torna esse desejo mais palpável para estudantes e pais é o desenvolvimento do “pensamento crítico”. Em termos socráticos, isso significa desenvolver uma série de habilidades que nos permite comprovar, encontrar evidências, sintetizar e concluir fatos. Dessa maneira, sabermos nos relacionar com informações, verdades, mentiras e vieses. Mais precisamente, estarmos prontos para a vida política, cultural e cidadã em sociedade.

Historicamente, os fundamentos democráticos gregos, os Direitos Humanos e a cidadania sustentam o pensamento crítico como um alicerce da escola contemporânea, quando se propõe laica e universal.

Um dos desafios contemporâneos pouco resolvidos que o desenvolvimento das habilidades ligadas ao pensamento crítico carregam diz respeito à vida digital dos estudantes. Destaco o que o filósofo Pierre Levy adiantava no final dos anos 90, em seu livro Cibercultura: a vida é física, mas é também digital.“A educação que desconsiderar isso está fadada ao fracasso”, profetizou.  Nesse sentido, a mídia é hoje não só uma lente pela qual enxergamos o mundo, mas também um espaço e tempo nos quais estamos inseridos e vivemos. O exame internacional Pisa, por exemplo, vem ano a ano, colocando o estudante brasileiro como o que gasta mais tempo na internet quando não está na escola.

Dessa forma, o que hoje tem sido delineado como “educação midiática”, focada no desenvolvimento de habilidades ligadas a comunicação, leitura, expressão e relacionamento, deve ser um eixo fundamental do que Sócrates definia como “pensamento crítico” para o mundo contemporâneo. Numa escala maior, preparar para a vida hoje é preparar para o consumo e relacionamento cultural “para” e “com” a mídia.

A legislação educacional brasileira anterior a BNCC abriu espaço sutil a educação midiática, bem como suas derivações e parâmetros. Essa veio consolidar uma tendência ( no campo “jornalístico midiático”) que, em outros países, já vinham legislando há pelo menos vinte anos. O desenvolvimento de uma “educação para a cidadania”, que pode reunir o pensamento crítico socrático e a educação midiática, separados por mais de dois mil anos, é evidente no relatório Crick feito em 1998 para as escolas inglesas, por exemplo. Veja o que esse documento previa como habilidades necessárias já em 1998:

  • Habilidade para elaborar um argumento verbal ou escrito fundamentado;
  • Habilidade para cooperar e trabalhar de maneira eficaz com os outros;
  • Habilidade para levar em conta e valorizar a experiência e a perspectiva dos outros;
  • Habilidade para tolerar outros pontos de vista;
  • Habilidade para desenvolver uma abordagem para resolução de problemas;
  • Habilidade para usar a mídia e a tecnologia moderna de maneira crítica para obter informações;
  • Abordar criticamente as evidências colocadas à sua frente e habilidade para buscar novas evidências;
  • Habilidade para reconhecer formas de manipulação e convencimento;
  • Habilidade para identificar, responder e influenciar situações e desafios sociais, morais e políticos.

Sem esquecer o segundo aspecto de “educar para a vida”, aquele do paradoxo mencionado no começo do artigo, ele acaba por tornar-se mais evidente quando consideramos a maneira curricular da instituição abordar o desenvolvimento do conjunto de habilidades do pensamento crítico.

A instituição conteudista mais tradicional, com disciplinas estanques (a maioria absoluta no mundo), tende a artificializar e fragmentar o ensino e, assim, tratar a “vida” como algo que acontece fora de seus muros. O que acontece na escola é quase como um processo único e exclusivo – uma pausa na vida para aprender.

Quando se desenvolve um currículo integrado, que permite, por exemplo, aos alunos resolverem um problema da comunidade, há centralidade no universo desse estudante, seus códigos, anseios e habilidades. Então há chance da linha de separação entre escola desaparecer; e também alguns outros muros de compreensão e conhecimento da mente do aluno. Essa é também uma maneira contemporânea de abordar o como o “aprendizado” pode acontecer nos tempos atuais que são híbridos (digitais e físicos), além de durarem a vida inteira (lifelong learning).

*Alexandre Le Voci Sayad é jornalista e educador e trabalha há vinte anos com temas de educação para a mídia e inovação. Cursou especialização em negócios pela Universidade da Califórnia / Berkeley e é fundador de três ONGS e duas empresas na área. Atualmente é diretor da consultoria ZeitGeist e membro diretivo da aliança GAPMIL, de educação para a mídia da UNESCO/ Paris. É autor de livros, dentre eles “Idade Mídia – A Comunicação Reinventada na Escola” (Editora Aleph). Mais informações:  alexandresayad.com. O profissional colabora voluntariamente com o Instituto GRPCOM, no Blog Educação e Mídia.

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