Elza Soares, a magia de uma mulher dura na queda

Francisco Viana*

Elza soares vivia perseguida pela sombra do preconceito.  Primeiro porque era pobre e venceu na vida. Depois porque se apaixonou por um homem casado, pai de 7 filhos, o famoso Mané Garrincha. Por fim, era amiga de Juscelino Kubitscheck e João Goulart, ambos perseguidos pelo regime militar pós-64. E por isso também ela foi perseguida.

Mas   nunca se curvou e sempre foi, acima de tudo, uma libertária que amava se expressar livremente. Não era uma mulher comum. Nunca foi. Sempre foi talentosa. E independente.

Elza, 88 anos, que teve tudo, perdeu tudo e novamente deu a volta por cima, hoje sem poder andar ,conta sua saga no seu eletrizante livro de memórias, Elza, escrito pelo jornalista Zeca Camargo. É para ler de um só fôlego. Da primeira à última página, é uma história de determinação e superação. Uma grande historia oral, na verdade, tal como é para ser entendida a Odisseia, de Homero.

O livro flui bastante. É ótimo. Elza tem um verão invencível dentro de si. Fez uma operação plástica para se encaixar socialmente. Parece patético. Não é. Sofreu o assédio de homens. Tinha uma espécie de imã  para atrair o sexo masculino, tanto que aos 70 anos atraia homens muito mais jovens. Lutou contra a bebida de Garrincha, um dos maiores craques do futebol brasileiro, seu grande amor, com quem viveu 17 anos. Perdeu os dentes num acidente de carro. E a mobilidade veio a perder gradativamente a partir de um segundo acidente,   este na abertura de um show na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro em 1999 e depois de um terceiro acidente a caminho da Finlândia .

Depois do segundo acidente teve de recomeçar a vida do zero. Nunca recebeu nada de mão beijada. A vida para ela tem sido um conquista diária, feira de glórias e dores.

Elza diz: “Sou tudo, menos coitadinha. “ Diz mais: “ Racismo? A gente enfrenta todo dia.”

O livro demonstra que os preconceitos há muito são uma epidemia no Pais. Não é de hoje. Na década de 60 Elza era uma artista consagrada, mas mulheres grã-finas do Rio de Janeiro nos seus shows costumavam sentar de costas para ela, numa flagrante discriminação.

Elza nunca se sentiu confortável. Nem no meio artístico. Se sentia deslocada. Tinha sido paupérrima. Andava de lata de água na cabeça, catava vidros e ossos na rua para vender.  Era negra e também na infância matava passarinho porque tinha fome. Superou tudo. Mais do que uma cantora brasileira tornou-se uma personalidade internacional. Pelas memórias de Elza desfilam uma multidão de nomes ilustres da música brasileira, de Cazuza a Caetano Veloso de Jorge  Ben Jor a Ivete Sangalo e Chico Buarque. Elza foi definida como a cantora do Milenium , mas  é um dos seus discos que melhor define quem ela é: a mulher do fim do mundo, na medida em que ela representa o fim da mu lher tradicional e o início da mulher liberta do século 21.

Como se nada disso bastasse, o livro mostra que há pessoas verdadeiras no mundo. Elza Soares é a prova disso. Autêntica. Não teme mais os preconceitos. Mas sabe que existem. E luta.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política ( PUC-SP).

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