Em busca da racionalidade perdida

Leia na íntegra o artigo publicado no Jornal Folha de São Paulo, no dia 17 de outubro.

Muitos são os questionamentos que partem de uma rápida análise das publicações nas redes sociais nos últimos dias. Opiniões inflamadas, discussões acaloradas surgem aos montes, sem nenhum filtro ou censura.

Um exemplo desse cenário foi o ocorrido recentemente: uma chefe de cozinha famosa, de um restaurante premiado de São Paulo, publica em suas redes uma foto com sua equipe, manifestando uma posição de certa forma agressiva, na medida em que todos os retratados fazem um gesto de xingamento.

Imediatamente após a publicação, hashtags são criadas para defender e atacar a personalidade em questão. A crítica, sempre tão favorável ao seu restaurante, passa a ser negativa, culminando até em boicote, tudo isso devido ao que seria um “simples” gesto de descontentamento com o cenário político. Descambou-se para um linchamento digital.

Surgem várias questões: ao expor sua posição, a partir de um xingamento, a autora da postagem estaria exercendo sua liberdade de expressão ou abrindo espaço à possibilidade de receber ofensas de volta? Ou tudo pode ser dito, desde que civilizadamente?

Essa reflexão é necessária, pois já perdemos há muito tempo a racionalidade do debate quando, em vez de estabelecermos pontes, queimamos vias, estradas, ou seja, todos os caminhos possíveis para o diálogo.

A construção de uma sociedade democrática passa pela necessidade da aceitação de opiniões contrárias.
Indignar-se, expor opiniões e posições, lutar por aquilo que se acredita nunca foi tão fundamental, como também é fundamental exercer a liberdade de expressão de forma consciente e responsável. Porque é assim que se constrói. Afinal, insulto não é argumento. Como também não é argumento a violência, a exemplo da que matou, na Bahia, um mestre de capoeira, envolvido em uma trágica discussão política.

A comunicação não violenta, ao contrário, leva à unidade dos opostos. Constrói. Simboliza a força dos argumentos. A vitória da civilização sobre a barbárie. Quem prega o ódio tem que estar preparado para ser atingido por ele. Funciona como um efeito bumerangue e, por mais longe que seja arremessado, sempre volta para quem o lançou.

Precisamos brecar essa onda de violência e brutalidade, avessa ao conceito de cordialidade e respeito.
Cabe a todos, como sociedade, e a cada um de nós, individualmente, retomarmos a racionalidade e colocarmos um fim neste círculo vicioso de ódio e intolerância, de “nós” contra “eles”.

Somente dando um basta, a partir das nossas próprias ações, é que poderemos realmente exercer a nossa liberdade.

Vencer o ódio não é utopia. Daí ser preciso não transigir com a violência e intolerância. E entender que as liberdades de expressão e de imprensa vieram para ficar, por serem indissociáveis da democracia. Um valor constitucional, patrimônio de todos os brasileiros, que paira acima de partidos e ideologias.

É nos momentos de decisão que a cultura do diálogo se afirma e se torna o princípio chave para a convivência civilizada.

 

Patricia Blanco – Presidente do Instituto Palavra Aberta

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