Facebook: da glória à infâmia em 15 anos

Carlos Alves Müller

Este é o último texto da série iniciada no ano passado sobre como as plataformas digitais funcionam, como afetam a maneira pela qual as pessoas se informam e se comunicam, e como isso tem transformado as sociedades contemporâneas, em particular a brasileira. A ideia era que fosse publicado na segunda quinzena de fevereiro e logo reunido aos ensaios anteriores num livro digital a ser publicado pelo Instituto Palavra Aberta. Uma sucessão de fatos novos ocorridos desde então, em especial a difusão ao vivo e a posterior reprodução do massacre de pacíficos cidadãos neozelandeses em Christchurch, no dia 15 de março, fez com que essa programação fosse alterada.

O Facebook é uma das maiores empresas tecnológicas contemporâneas. Com a Alphabet (dona do Google), forma um duopólio em quase todos os países ocidentais; duopólio que na verdade é um monopólio em suas respectivas especialidades – no caso Facebook, monopólio como rede social baseada nas informações fornecidas por seus usuários (que, em sua maioria, não sabem em que extensão e como são exploradas comercialmente pela empresa, especialmente por meio das outras empresas do grupo: WhatsApp e Instagram).  

foto do QG do Facebook em Menlo Park – Califórnia

Este texto, entretanto, se limitará ao Facebook fundado há apenas 15 anos (em 04/02/2004) por um pequeno grupo de estudantes, no início em seus dormitórios da Universidade de Harvard (o filme a respeito, embora tenha um viés ficcional, é razoavelmente fidedigno) liderado pelo pouco sociável Mark Zuckerberg. E nisso há outra ironia da vida, pois seu sobrenome, em alemão significa literalmente “montanha de açúcar”, algo que ele definitivamente não é: nem montanha, nem um “doce de pessoa”, como tem demonstrado.

A Glória

Em apenas 15 anos a empresa tornou-se um fenômeno sem precedentes na história pela rapidez e amplitude com que conquistou adeptos. Uma comparação da jornalista Meira Gebel, do site especializado Business Insider (confirmada por dados do World Atlas), dá uma ideia mais clara dessa abrangência: Com 2,32 bilhões de usuários mensais, o Facebook tem mais seguidores do que todos os ramos do cristianismo juntos, uma vez que a cristandade, com seus 2,3 bilhões de fiéis conquistados, às vezes pela violência, ao longo de 2019 anos, é a maior religião do mundo. Também é maior que a população de qualquer país ou que o número de pessoas que falem qualquer idioma.

O site especializado TIInside, fornece outras informações sobre o tamanho da Internet e do Facebook em matéria de 27/02/2019:

“… levantamento deste ano feito pelo Statista [site norte-americano de estatísticas], a Índia é o país com maior número de internautas que usam a rede… 300 milhões de pessoas.
Em seguida, estão os Estados Unidos com 210 milhões de usuários. O terceiro lugar é ocupado pelo Brasil, com mais de 130 milhões de usuários,ou seja, a cada 10 brasileiros conectados, 8 usam o Facebook”.

Uma boa cronologia dos 15 anos está em “Facebook’s first 15 years were defined by user growth – From dorm room to global dominance, Facebook’s path to 2.3 billion users” – dos jornalistas Kurt Wagner e Rani Molla, publicada em 05/02 deste ano no site especializado Recode.

A popularidade, o irresistível atrativo de proporcionar a qualquer pessoa o estabelecimento de contato com parentes, amigos ou conhecidos “gratuitamente” levou a rede social à glória e seu principal fundador, Mark Zuckerberg à condição de um dos maiores bilionários do planeta – A revista e site de finanças e economia Forbes faz um monitoramento diário das grandes fortunas globais. No dia em que este texto estava sendo finalizado (27 de março), a riqueza pessoal de Zuckerberg era estimada em US$ 61,8 bilhões. Embora tenha “apenas” 10% do capital do Facebook, ele detém 60% das ações com direito a voto, o que torna difícil qualquer rebelião de acionistas devido aos erros que vem cometendo.

Nem por isso, nem por ter frequentado sem concluir uma das melhores universidades do mundo, ele entendeu que a fortuna nos vários sentidos da palavra não é eterna nem para a empresa, nem para ele. Assim, tão rapidamente como ascendeu ao olimpo do empreendedorismo, a criatura (e o criador) perdeu o encanto e se tornou “a empresa de tecnologia que as pessoas adoram odiar”, como diz Alexis Madrigal, colunista da revista e do site liberais norte-americanos The Atlantic.

A tormenta

Como os negacionistas da mudança climática, Zuckerberg não viu ou fingiu não ver as evidências de que os tempos já não eram os mesmos. Alguns analistas localizam os primeiros indícios de tempestade pela proa da nau Facebook em 2016, quando surgiram as acusações de que havia permitido que fosse utilizada (quando não contribuído de forma consciente para) a disseminação de notícias falsas que favoreceriam a eleição de Donald Trump e o voto pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit).

A rede social e seus dirigentes responderam como sempre: tergiversações, desmentidos, mentiras, ocultação de evidências, minimização, anúncio de medidas pífias e, naturalmente, promessas de que, daí em diante, tudo seria diferente. Eleições realizadas nos quatro cantos do mundo, inclusive ao sul do Equador onde os pecados, pelo menos os relativos ao âmbito político da moral, parecem não existirem, provaram que as coisas eram bem diferentes.

O barco começou a fazer água em março de 2018, quando os respeitados jornais britânicos The Observer e The Guardian, mantidos por fundação (o primeiro semanário e o segundo diário com edição digital paralela para os EUA), acompanhados pelo The New York Times, publicaram uma reportagem irrefutável: uma empresa de consultoria política com o pomposo nome de Cambridge Analytica, apesar de não ter qualquer relação com a universidade homônima, havia utilizado ilicitamente dados de 50 milhões de usuários do Facebook e manipulado esses dados de forma a apoiar a candidatura republicana, dissuadindo certos segmentos do eleitorado que não morriam de amores pela candidata democrata Hillary Clinton a não votarem, com base no argumento de que  “afinal, era branca e parte do establishment…” . O escândalo levou à falência da Cambridge que não só trabalhara para a campanha Trump como mantinha contatos estreitos com o grupo mais direitista e inescrupuloso de seus estrategistas.

A posterior descoberta de que a direção da rede social tinha conhecimento da operação desde 2015, que além da Cambridge, dezenas de outras empresas que comercializavam dados pessoais comprados do Facebook; que desenvolvedores de aplicativos tinham pago pelo acesso a esses dados sem que o Facebook exigisse qualquer garantia de que seriam usados licitamente (e sem a menor proteção à privacidade dos usuários) gerou uma onda de desconfiança que se prolonga até hoje.

A decepção com as práticas obscuras do Facebook fez com que Brian Acton, um dos criadores do WhatsApp, que havia permanecido com Zuckerberg depois da incorporação do serviço de mensagens, se desligasse e exortasse os usuários a abandonar a rede. Não foi o último.

Entre os neocríticos está o investidor Roger McNamee que conheceu Mark Zuckerberg em 2006 e colocou bom dinheiro na empresa até se dar conta do que ocorria e contar tudo no livro “Zucked: Waking Up to the Facebook Catastrophe”. Mesmo para quem não domina o inglês é fácil identificar algumas palavras que dão sentido ao título – “Zucked” é um evidente trocadilho com “Fucked”, palavrão conhecido de quem gosta de filmes de ação e “Facebook Catastrophe” dispensa tradução. Do ano passado para cá, as deserções foram tantas que permitiriam criar uma nova empresa de alta tecnologia com um grupo de profissionais da mais alta competência.

Outro exemplo é o de Sandy Parakilas diretor de operações de plataforma do Facebook entre 2011 e 2012. Atualmente ele é diretor de produto do Uber e assessor da entidade de defesa da privacidade Center for Humane Technology. Meses antes que o escândalo da Cambridge Analytics visse a público ele publicou um artigo dizendo que era necessário algum controle público sobre as operações das redes sociais.

Quando ainda trabalhava na rede, Parakilas tentou inutilmente convencer os diretores do Facebook de que adotassem pelo menos algum tipo de controle sobre os dados dos usuários a que os desenvolvedores tinham acesso. Inutilmente. Numa entrevista ao jornal espanhol El País, publicada em 07/05/2018, ele afirmou categoricamente: “Minha opinião é que não queriam saber [o que ocorria com os dados dos usuários] porque se soubessem todos os detalhes do que estava ocorrendo então estariam legalmente obrigados a assegurar que esses abusos parassem”. Outra entrevista com ele, mais recente e acompanhada por outros textos em espanhol sobre assuntos correlatos, pode ser lida na publicação “Tech & Society 2018 –  Un foro para pensar sobre el futuro de la sociedad tecnológica”, publicada recentemente pela Fundación Telefónica. Para ler o texto na íntegra, clique aqui

Até os “moderadores”, pessoas de diferentes países e idiomas cuja contratação para avaliar as postagens suspeitas ou fora dos critérios de publicação da rede havia sido anunciada como um grande avanço contra o uso condenável do Facebook, se rebelaram. Terceirizados em sua maioria, com salários abaixo da média dos empregados diretos e submetidos a condições de trabalho estressantes, eles também decidiram denunciar Zuckerberg & Cia.

Como no poema de Affonso Romano de Sant’Anna, Zuckerberg e seus mais próximos colaboradores seguiram mentindo “de corpo e alma, completamente”, mentindo “de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente”. Não discriminavam. Mentiam para os usuários do Facebook a quem asseguravam compromisso com a ética no tratamento dos dados pessoais, sobre a segurança de seus dados etc.; para os anunciantes, para quem falsificavam os números de audiência e garantiam que os anúncios pagos eram associados apenas aos perfis desejados (e não iam parar em sites mantidos pelo Estado Islâmico, por exemplo, como de fato ocorria. Mentiam a gente que não chega a ser a honestidade intelectual em pessoa, como certos políticos, mas que não gosta de ser ludibriada num depoimento jurado – ou o que os irritou ainda mais, não compareceram aos depoimentos previstos. Para jornalistas, não havia restrição de temas. Mentiam indiscriminada…mente.

Quando já não era mais possível mentir simplesmente, respondiam com evasivas, minimizava os problemas com violações de segurança, números de publicidade, contas hackeadas, dados cedidos sem autorização, perfis associados ao crime e assim por diante. Uma busca no Google – que tampouco é nenhum prodígio de idoneidade, como demonstram as multas que lhe têm sido aplicadas sucessivamente pela União Europeia, permite encontrar um amplíssimo repertório de mentiras da empresa e de seus principais executivos.

 Quando nem a mentira nem a minimização eram mais possíveis, a cúpula facebookeana recorria a outra tática: divulgavam comunicados e compareciam perante as autoridades e os jornalistas com ar compungido, “admitiam” que o problema era real, mas desconhecido até então, que se revelou mais grave que o inicialmente estimado e, naturalmente, prometiam medidas radicais para superá-lo. Foi o que fizeram no último aniversário, em 04/02/19. Só que a audiência estava farta do que os norte-americanos consideram, com asco, pura “bullshit”, expressão que, os dicionários usualmente traduzem por “conversa fiada” ou “monte de mentiras”, omitindo a natureza escatológica da tradução literal. O título da matéria do “Link”, a seção sobre tecnologia de O Estado de S.Paulo, sobre o comunicado daquele dia é eloquente: “No aniversário de 15 anos do Facebook, Zuckerberg faz textão e promete mais segurança”.

As deserções e decepções não dissuadiram a cúpula do Facebook de seguir com as manobras que já não surtiam efeito, dando origem a denúncias e revelações comprometedoras quase semanais. Em consequência, o tom das críticas e a qualificação dos que as faziam foi subindo até chegar à surpreendente afirmação de um documento da Comissão de Cultura, Digital, Mídia e Esporte da Câmara dos Comuns da Grã Bretanha intitulado “Disinformation and ‘fake news’: Final Report” no qual, depois de uma investigação de 18 meses, os executivos do Facebook foram acusados de obstruir propositadamente a investigação sobre as tentativas da Rússia de manipular eleições, nomeadamente nas que ditaram o Brexit” e de violar intencionalmente e conscientemente” as leis de privacidade de dados britânicas (grifados no original). O texto, disponível no site do Parlamento, não deixa por menos: Empresas como o Facebook não devem se comportar como ‘gângsteres digitais’ no mundo on-line, considerando-se à frente e acima da lei”.

Zuckerberg e sua empresa frequentemente agem de forma catatônica. Num comunicado sobre o relatório britânico disseram que o Facebook havia contribuído “significativamente” com as investigações, respondendo a mais de 700 perguntas” e que estavam abertos a “uma regulação construtiva”. Não entenderam ou fingiram não entender que esse momento já havia passado.

Na Europa, mas também nos Estados Unidos e até no Brasil, desde 2018 se avolumam os movimentos de governos e da sociedade civil no sentido de submeter as gigantes de tecnologia, em particular Facebook e Google, a regulação e a formas diversas de controle. Enquanto o número de usuários diminui – só na Europa, seu segundo mercado, o Facebook perdeu, no final do ano passado, um milhão de usuários e no mundo inteiro a deserção é mais intensa entre os jovens. Cada vez mais os governos e os parlamentos discutem e aprovam normas que punem a manipulação de dados, a violação das leis de privacidade e impõem pesadíssimas multas por violação da legislação de concorrência, por evasão fiscal, aplicam ao mundo digital as normas sobre direito autoral válidas para os conteúdos veiculados por outros meios, etc.

Um mês depois do aniversário da empresa, Zuckerberg voltou a atacar, agora prometendo, mais uma vez, que doravante tudo será diferente. Com a informalidade que o caracteriza disparou mais um comunicado aos funcionários no dia 14/03/19:

 “Olá a todos – Quero compartilhar algumas atualizações importantes à medida que organizamos nossa companhia para construir uma plataforma social centrada em privacidade que descrevi em um texto na semana passada. Embarcar nesta nova visão representa o começo de um novo capítulo para nós”. 

Como assim? Queria que o mundo acreditasse que ele subitamente se tornara devoto da Santa Privacidade? Em especial não enganou David Kirkpatrick, que o conhece de perto porque é ex-editor de tecnologia da revista Fortune e autor do único livro sobre o Facebook que teve a colaboração do próprio fundador da rede social, como destaca Bruno Romani de O Estado de S.Paulo em entrevista publicada em 17/03/19 

“O que Zuckerberg anunciou não tem nada a ver com isso. Em vez de falar das falhas de privacidade pelas quais foi criticado, ele tentou totalmente mudar de assunto para um outro conjunto de questões. É difícil não ver uma intenção de confundir a todos, e aliviar a pressão sobre ele, sem genuinamente atacar os problemas. No final, acredito que o que ele apresentou é fundamentalmente desonesto. Não é que ele não tenha a intenção de fazer o que ele disse que vai fazer. Mas é desonesto fingir que essa é a resposta para os problemas de privacidade do Facebook”. 

No dia seguinte, foi a vez de Siva Vaidhyanathan, professor de Media Studies da University of Virginia e autor deAntisocial Media: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy” publicar um artigo no The Guardian com o título “Facebook’s privacy meltdown after Cambridge Analytica is far from over” – O colapso da privacidade do Facebook após o Cambridge Analytica está longe de terminar.

Além de conhecedor dos usos e abusos do Facebook, Siva Vaidhyanathan tinha outros motivos para suas reservas em relação à rede social: ele havia estudado o sórdido papel político desempenhado por ela em favor dos governos da Índia e das Filipinas, como o Presidente filipino Rodrigo Duterte “transformou o Facebook numa arma”, conforme noticiou o Bloomberg/Business Week.

Siva conhecia também como a difusão do ódio estimulado pelo governo de Myanmar resultou no genocídio praticado contra a minoria Rohingya, conforme relatou em entrevista à NPR (rede pública de rádio e televisão dos EUA) em entrevista difundida em 26/12/17. Por muito tempo, o Facebook e Zuckerberg trataram do assunto “as usual” – negando, minimizando, tergiversando até que as provas se tornaram avassaladoras. Então, recorrendo a um relatório encomendado à entidade  Business for Social Responsibility (BSR), que tem sede em San Francisco, reconheceu que “Os ataques contra a minoria muçulmana rohingya em Mianmar ocorreram, em parte, porque o Facebook não tomou as medidas necessárias para impedir a disseminação de notícias falsas e de conteúdo de ódio”, conforme noticiou a Folha de S.Paulo, em 08/11/18.

Até a revista Technology Review, do Massachusetts Institute of Technology, imune a arroubos tecnófobos portanto, pegou pesado e, publicou texto assinado por Konstantin Kakaes, seu editor e jornalista residente no Instituto Simons para a Teoria da Computação da University of Califórnia em Berkeley, com o título “O novo ensaio de privacidade de Zuckerberg mostra por que o Facebook precisa ser dividido”.

A tese de que os gigantes de tecnologia como Facebook e Google precisam ser desmembrados – como no passado foram a Standard Oil e AT&T, monopólios do petróleo e das comunicações respectivamente, ganha novos defensores a cada dia, como reconhecem até alguns defensores da desregulação. “Definitivamente algo mudou”, afirmou Geoffrey A. Manne, fundador do International Center for Law and Economics, um centro de pesquisa de Portland, Oregon (EUA). “A maioria dos votantes sente muito apreço por Amazon, Apple, Google e inclusive Facebook. Mas acho também que cada vez há uma maior sensação de ceticismo sobre todas essas empresas. Se acabou o encanto”. A declaração faz parte de reportagem de David Streitfeld, publicada em 19/03/19 no The New York Times com o sugestivo título de: “Why a Big Tech Breakup Looks Better to Washington”, “La lucha contra los monopolios está en auge” na edição em espanhol.

Se este texto que o estimado leitor tem diante dos olhos tivesse trilha sonora, neste momento ouviríamos Elis Regina cantando o “Soneto da Separação”, de Vinícius de Moraes, e veríamos um holograma do estadista francês Georges Clemanceau, aquele que durante a Primeira Guerra Mundial afirmou: “La guerre! C’est une chose trop grave pour la confier à des militaires” Homem arguto, ele viria nos dizer: “A tecnologia! É uma coisa demasiado grave para ser confiada aos tecnólogos”.

O Sangue

E então ocorreu o massacre das mesquitas da nova Zelândia, transmitido ao vivo pelo Facebook. O vídeo foi removido, mas o horror já havia sido visto e copiado pelas mentes insanas que parecem se multiplicar como células cancerígenas no Facebook e repostados no Youtube e em outras muitas redes digitais. O Facebook anunciou que nos primeiros dias posteriores aos ataques havia removido mais de 1,5 milhão de fontes de postagens favoráveis à matança. Afirmou que estava fazendo o possível. Mais uma vez…

Mais uma vez não entenderam ou fizeram de conta que não entendiam o que estava acontecendo. E mais uma vez, nem todo mundo acreditou. Aliás, cada vez menos gente acredita e os que não acreditam reagem de forma indignada. Tão indignada como Fran O’Sullivan, chefe de negócios da New Zealand Media and Entertainment (NZME) grupo de mídia da Nova Zelândia que opera 32 jornais, 8 redes de rádio e vários sites em vinte e cinco mercados em todo o país, atingindo mais de 3 milhões de pessoas. Para que se tenha uma ideia, é proporcionalmente maior que o Grupo Globo no Brasil. Foi num dos jornais do grupo que O’Sullivan expressou sua ira (e de tantos neozelandeses) contra a empresa de Zuckerberg no dia 20/03/19: “Why Facebook has blood on its hands” (“Por que o Facebook tem sangue em suas mãos”). Esse é o título do artigo no qual lembra:

“Como Mary Anne Franks, professora de direito da Universidade de Miami, disse à Bloomberg ‘simplesmente não há maneira responsável de moderar um verdadeiro serviço de transmissão ao vivo’. O Facebook sempre soube que o serviço tem o potencial de ‘encorajar e ampliar o pior da humanidade, e deve confrontar o fato de que tem sangue em suas mãos’ em relação a Christchurch”.

Em Londres, a editora-chefe do The Guardian foi menos emotiva, mas não menos contundente ao comentar que o ataque que foi transmitido ao vivo – e com anúncio prévio de que seria feito pelo criminoso – não apareceu na plataforma de seu jornal para argumentar em seguida

“Eles [Facebook] tem muitos bilhões mais que o Guardian e todos os melhores engenheiros do mundo. Com todos aqueles engenheiros e todo aquele dinheiro eles poderiam ter encontrado uma solução para esse tipo de coisa se eles realmente quisessem. Mas eles estão mais focados na receita que em ser parte funcional da democracia”.

O comentário Katherine Viner é em grande medida retórico quando afirma que dinheiro e engenharia resolveriam o problema se houvesse disposição de fazê-lo. Ela sabe que no fundo a questão é como foi colocada por O’Sullivan. Crer que é possível uma solução tecnológica, ao menos no atual estágio de desenvolvimento dela, é incidir na “Loucura do Solucionismo Tecnológico” título de todo um livro do especialista bielorrusso e colaborador do The Guardian Evgeny Morozov. Até porque a cada avanço no esforço por conter o crime nas redes sociais os criminosos respondem com avanço tecnológico em sentido contrário, o que virtualmente (sem trocadilho) significa que burlam as salvaguardas, como estão fazendo no caso do massacre.

Após o massacre, o Facebook postou em seu site comunicados “explicando” o que estava fazendo para enfrentar o problema (o brasileiro não mereceu as explicações dadas nas versões em inglês). Parece não se darem conta de que as razões que usam para justificar que estão fazendo o possível são justamente aquelas que poderiam ser usadas para justificar que eles não podem explorar as redes sociais da maneira como têm feito.

A infâmia

E então vem a infâmia. Inacreditavelmente, no dia 25/03/19, Zak Doffman, especialista em segurança e vigilância digital da revista e do site Forbes repercutiu (depois de checar) notícia do jornal britânico The Independent segundo a qual

“apesar da retórica e da preocupação, … o Facebook ainda permitiu que grupos neonazistas permanecessem em sua rede porque não violam ‘padrões comunitários’, mesmo após os recentes acontecimentos e o destaque do papel da mídia social na radicalização e na incitação de extremistas”.

Doffman lembrou que as regras do Facebook dizem:

“Não permitimos o discurso do ódio no Facebook porque cria um ambiente de intimidação e exclusão e em alguns casos pode promover a violência do mundo real. Definimos o discurso do ódio como um ataque direto às pessoas com base no que nós chamamos características protegidas – raça, etnia, nacionalidade, afiliação religiosa, orientação sexual, casta, sexo, gênero, identidade de gênero, e doença grave ou deficiência”.

 Apesar disso, prossegue Doffman no texto:

“O jornal [The Independent] descobriu que ‘páginas operadas por facções de organizações internacionais de supremacia branca, incluindo o Combat 18 e a Misanthropic Division, foram reportadas, mas o Facebook se recusou a remover o conteúdo e disse aos pesquisadores para deixar de seguir páginas se as acharem ‘ofensivas'”.

Bastaram poucos dias para as autoridades neozelandesas ordenassem o bloqueio daquelas postagens sob pena de prisão dos executivos da rede social residentes no país com base na legislação contra a apologia do ódio, conforme noticiou o mesmo Doffman, em 27/3. Dessa vez a rede social deu ouvidos e anunciou, também em português no mesmo dia…

“Hoje reforçamos as nossas diretrizes para banir conteúdos que enalteçam, apoiem e representem o nacionalismo e separatismo branco no Facebook e no Instagram. Está claro que esses conceitos são profundamente relacionados com a supremacia branca e ao ódio organizado e não possuem espaço em nossos serviços”.

Com notável caradurismo o comunicado afirma que a empresa já vinha trabalhando no assunto: “nos últimos três meses, em nossos diálogos com membros da sociedade civil e acadêmicos especialistas em relações raciais de todo o mundo confirmaram que o nacionalismo e separatismo não podem ter significados distintos da supremacia branca e ódio organizado”.

Vale a pena reproduzir um trecho mais longo do comunicado. Como em ocasiões anteriores, fizeram o “mea culpa” e prometeram tomar providências sem se comprometer com os resultados, afinal a tecnologia…

Também precisamos aprimorar e agilizar o processo de encontrar e remover conteúdo de ódio das nossas plataformas. Nos últimos anos, melhoramos nossa capacidade de usar machine learning e inteligência artificial para encontrar conteúdos de grupos terroristas e de ódio, com foco no Estado Islâmico e na Al-Qaeda…Estamos  progredindo, mas sabemos que temos muito mais trabalho a fazer.

A partir de hoje também começamos a conectar pessoas que procuram termos associados com supremacia branca com fontes focadas em ajudar pessoas a se desassociarem de grupos de ódio. As pessoas que procurarem esses termos serão direcionadas ao Life After Hate, uma organização fundada por ex-extremistas violentos que fornecem apoio através de campanhas educacionais, intervenções e pesquisas acadêmicas…

Infelizmente, sempre haverá pessoas que tentam burlar nossos sistemas para compartilhar o ódio. Nosso desafio é continuar melhorando nossas tecnologias, evoluindo nossas políticas e trabalhando com especialistas que possam nos ajudar em nossos esforços. Estamos profundamente comprometidos e compartilharemos atualizações à medida que esse processo avance.

Em 08 de março, o site especializado Business Insider publicou reportagem reproduzida por O Estado de S.Paulo com uma detalhada descrição do esquema de segurança pessoal de Mark Zuckerberg, que custa US$ 10 milhões por ano e “conta com 70 pessoas e é liderada Jill Leavens, ex-agente do serviço secreto dos EUA”. O esquema incluiria (a afirmação é condicional porque nenhuma fonte confirmou o que é tido no Facebook como verdadeiro) “Túnel de escape na firma, escritório com vidro blindado e quarto do pânico”. Parece que o jovem Mark sabe o que faz e que um dia Maomé – ou mais plausivelmente as autoridades – podem ir à Montanha de Açúcar e então ele terá uma rota de fuga.

 

Carlos Alves Müller

As opiniões expostas são de responsabilidade exclusiva do autor do artigo.

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