O novo Iluminismo e os desafios das novas narrativas

Francisco Viana*

Termino de ler e reler O novo Iluminismo, em defesa da razão, da ciência e do humanismo, do neurocientista da universidade de Havard, Steven Pinker (Companhia das Letras, 2018). É uma visão atual e original da revolução da informação, de novas formas de expressão e do progresso humano. Temas preciosos que ganham cada dia maior significado contra o populismo autoritário, de direita ou de esquerda, e para defesa dos muitos progressos da humanidade que dão alicerce à liberdade de expressão e distingue o progresso do mero domínio das novas tecnologias ou de qualquer outra coisa. Há um movimento crescente chamado humanismo, argumenta ele,  que promove uma base não sobrenatural para o sentido da ética, do progresso e do bem estar. E que é “atraído e não intimidado pelo que ainda não é conhecido “.

No livro, Pinker afirma que os valores do Iluminismo são o antídoto contra as distopias que vem grassando nesse início do século 21. Também é antídoto natural contra reações populistas, herdadas do tribalismo e do autoritarismo contra ideias como a liberdade de expressão, diversidade de opinião e verificação factual de alegações . Há, é verdade, uma tendência de ver os ideais do Iluminismo como grandes fracassos como , por exemplo, o liberalismo, a razão modernizadora, o direito às liberdades, o humanismo, as ciências. Porém, a realidade dos fatos, ainda segundo o autor aponta no sentido contrário, embora não haja uma consciência universal do significado dos seus valores.

O Iluminismo começou a ganhar forma na Europa – basicamente na França, Alemanha e Inglaterra – há mais de dois séculos. Será que fracassou? Não na visão de Pinker: a sua trajetória aponta no sentido do êxito. O problema é que esse êxito precisa ser narrado e reafirmado na linguagem das novas gerações.

É esse o desafio. Pois as vertentes do Iluminismo são múltiplas e estão presentes desde a Declaração  Universal dos Direitos Humanos ao conceito de imparcialidade, da liberdade de ir e vir à liberdade de imprensa, do direito à busca da felicidade ao direito à vida.

A própria democracia é uma herança iluminista. Seus alicerces são profundos. Seus valores não são puritanos ou hedonísticos, mas elos de uma mesma “cadeia causal” que permite que as mentes se aperfeiçoem e os desejos conflitantes encontrem um ponto de equilíbrio.

O novo Iluminismo é um livro muito bem fundamentado. Indispensável para uma visão ampla, aberta e otimista da sociedade em que vivemos, a despeito das suas múltiplas contradições, expressas por exemplo, nos crimes de ódio, na depressão, no desemprego e nos suicídios. Sustenta Pinker: “O mundo é cerca de cem vezes mais rico do que era há dois séculos e a prosperidade está se redistribuindo…. a proporção da humanidade que vive em extrema pobreza caiu de quase 90 % para menos de 10%…O mundo está dando uma chance à paz. “ E diz mais: “O Iluminismo está funcionando: durante dois séculos e meio, a humanidade usou o conhecimento para o florescimento humano”. Por fim, Pinker  constata: à medida em que se tornam mais ricas, livres, saudáveis e evoluídas, as pessoas se voltam para os desafios globais mais urgentes e fechassem atos que individualmente podem ser benéficos , mas que são “ nocivos em termos coletivos”. O novo Iluminismo, sem duvidas, é otimista, mas não deixa de ser crítico. Tem o condão de defender a ideia de que a informação vem contribuindo para melhorar o mundo. Continuamente.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC – SP).

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