
Por que tanto ódio no futebol?
Por que tanto ódio no futebol? https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/design-sem-nome-9-1-e1784203490699.webp 650 468 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/design-sem-nome-9-1-e1784203490699.webpMariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta
A 23ª Copa do Mundo da FIFA de Futebol Masculino chega ao fim no domingo com novos recordes, como vem acontecendo nas últimas edições. Um deles é o exponencial aumento de conteúdo de ódio relacionado ao Mundial nas redes sociais: 89 mil publicações consideradas abusivas foram detectadas somente durante a fase de grupos, número 13 vezes superior ao torneio disputado no Catar em 2022.
Desse total, 11% foram classificadas como discriminação racial — segundo a FIFA, “os dados mostram uma direção preocupante em relação a abusos com essa motivação”. As informações são do Serviço de Proteção às Redes Sociais (SMPS) da entidade, que examinou mais de seis milhões de postagens utilizando inteligência artificial e análise humana.
Entre os exemplos mais abjetos estão as ofensas racistas contra Kylian Mbappé, publicadas em uma rede social por uma senadora paraguaia Celeste Amarilla, após a eliminação dos latinos nas oitavas de final. Também por meio de uma mídia social, o atacante francês rebateu as palavras infames da política, afirmando que ela seria indigna do cargo que ocupa.
O questionamento sobre a nacionalidade de alguns jogadores talvez seja o símbolo mais contundente de discriminação racial na Copa. Crysencio Summerville, Justin Kluivert e Quinten Timber, atletas da seleção holandesa, foram alvo de comentários do tipo, com emojis de macacos postados em seus perfis pessoais. Ao perderem seus respectivos pênaltis contra o Marrocos, sacramentando a eliminação da equipe europeia, os jogadores restringiram as interações em suas redes para não sofrerem mais as consequências odiosas de um discurso denominado socialmente como “europeu quando ganha, imigrante quando perde”.
Essa narrativa, que parte de premissas eugênicas e tem sido disseminada por grupos e políticos extremistas contra imigrantes e refugiados, comumente sob a falsa égide da liberdade de expressão, também não é exclusividade desse Mundial: em 2021, o próprio Mbappé revelou ter pensado em deixar a seleção da França após desperdiçar uma penalidade na Eurocopa. Em entrevista recente, ele afirmou: “’Eu jogo por pessoas que, se eu não marco, me chamam de macaco. Pensava que não poderia jogar por essas pessoas”.
Em volume exponencial e escondido sob falsos avatares, o ódio que vemos nas redes sociais é o ódio que encontramos fora delas. Não faltam exemplos: nesta semana, o ex-primeiro ministro espanhol Mariano Rajoy disse, às vésperas da semifinal do Mundial, que a seleção francesa tinha “um altíssimo nível”, mas que “não tinha franceses”. Ainda na Espanha, é preciso citar a série de ataques sofridos por Vinicius Jr nos últimos anos jogando pelo Real Madrid, sobre os quais o jogador tem sido bastante vocal.
Em termos de América Latina, é quase impossível encontrar uma edição recente da Conmebol Libertadores masculina sem uma denúncia de racismo por parte dos jogadores ou de torcedores e torcedoras. A situação não é diferente quando olhamos somente para o futebol brasileiro: o ótimo trabalho que o Observatório da Discriminação Racial no Futebol realiza desde 2014 contabiliza situações de discriminação no esporte tanto nos estádios como na internet.
É válido lembrar que o levantamento da FIFA afirma a existência de outros tipos de discriminação em meio às postagens analisadas, mas não os detalhou. No entanto, sabemos que a misoginia e a LGBTfobia são inerentes ao futebol masculino, que segue sendo um espectro de masculinidades hegemônicas que elaboram e organizam o “espetáculo” há décadas, tanto dentro quanto fora do campo.
Em síntese, a Copa do Mundo de Futebol Masculino nos lembra, mais uma vez, que racismo e xenofobia andam de mãos dadas: seja nos comentários odiosos de anônimos ou na boca de líderes políticos. Eliminações, classificações e gols só revelam aquilo que ainda nos estrutura, infelizmente, enquanto sociedades mundo afora.