Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

Unesco aponta para baixa implementação da educação midiática nos currículos mundo afora

Unesco aponta para baixa implementação da educação midiática nos currículos mundo afora 1024 683 Instituto Palavra Aberta

Bruno Ferreira, coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta

A urgência da educação midiática no cenário global ganhou um novo marco com o anúncio da matriz do PISA 2029, que passará a avaliar de forma integrada o letramento midiático e a Inteligência Artificial (MAIL). Essa movimentação da OCDE reforça a necessidade de políticas educacionais sólidas, mas esbarra em uma realidade ainda fragmentada: um estudo recente da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) revela que, embora a maioria de seus 194 países-membros reconheça a importância do tema, apenas 9% possuem uma política específica para a área e 22% não a integram, de nenhuma forma, ao currículo escolar.

O estudo demonstra também que a maior parte dos países ainda se limita ao desenvolvimento de competências digitais, sem priorizar o desenvolvimento de saberes e habilidades críticas relacionadas às mídias e à informação, algo aquém da proposta da educação midiática, que consiste em problematizar os usos e apropriações das mídias na cultura digital, contemplando o debate acerca do acesso, produção e disseminação de mensagens de mídia.

“Globalmente, 84 dos 194 países (43%) integraram elementos de MIL (Alfabetização Midiática e Informacional) — conforme descrito pela Unesco — nos currículos da educação nacional formal. Outros 56 países (29%) também integraram alguns elementos de MIL nos currículos nacionais, porém limitam essa integração à abordagem apenas da alfabetização digital”, afirma o relatório intitulado Media and Information Literacy for all: closing the gaps (“Alfabetização Midiática e Informacional para todos: fechando as lacunas”, em tradução livre).

A principal conclusão desse levantamento é de que o reconhecimento da importância da alfabetização midiática e informacional não se traduz em projetos concretos de implementação do tema nas políticas e sistemas de educação. Este é, em parte, o caso do Brasil, que integra indiretamente a educação midiática na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de 2017, diretriz que indica os direitos de aprendizagem da educação básica, sendo a principal referência para a formulação dos currículos das redes de ensino.

Seu complemento de Computação, de 2022, aprofunda habilidades digitais, algumas das quais contemplam a educação midiática, embora ainda seja necessário um aprofundamento para promover a reflexão acerca das mídias como um sistema complexo de representação, suas linguagens, meios de produção e formas de recepção das mensagens.

O país carece, portanto, de um currículo específico de educação digital e midiática, embora já existam diretrizes para o seu desenvolvimento, formuladas no ano passado pelo MEC, em resposta à determinação da obrigatoriedade da escolarização do tema, por meio de resolução publicada em 21 de março de 2025.

No entanto, até o momento nem mesmo a BNCC da Computação foi plenamente implementada no Brasil. A última pesquisa TIC Educação demonstra isso, com o posicionamento de 59% dos coordenadores pedagógicos participantes do levantamento que afirmam que suas escolas ainda não contemplam esse currículo.

Nesse cenário, é urgente desfazer a confusão entre o currículo de computação e a educação midiática que, embora tenham intersecções, não se equivalem. Sem essa clareza conceitual e uma política de implementação que organize a sobreposição de normas atuais, o Brasil continuará distante de fechar as lacunas que ainda dificultam uma prática pedagógica segura no desenvolvimento de saberes críticos relacionados às mídias na cultura digital.

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