The Brazilians

Patrícia Blanco*

Quando perguntada sobre o que fez a diferença no curso Summer Institute in Digital Literacy neste ano, a professora Renee Hobbs, uma das maiores especialistas em educação midiática dos Estados Unidos, não hesitou em responder: “The Brazilians“.

Entre nós, no Instituto Palavra Aberta, a resposta, mais do que um elogio, soou como um forte reconhecimento. Um reconhecimento internacional de envergadura pelo trabalho pioneiro que estamos colocando em prática desde o lançamento do EducaMídia, no último mês de junho. Uma das nossas prioridades, a educação midiática é um desafio que estamos vencendo lentamente. No Brasil, país de dimensões continentais, o tema é recente e a vastidão da geografia e as desigualdades regionais, exemplificadas pela infraestrutura educacional precária, tornam o desafio ainda mais vultuoso e faz desse reconhecimento um grande incentivo para continuarmos nesta jornada.

E entusiasmo não nos falta! Foi o que demonstramos com nossa ativa participação, na semana passada, nesse curso de verão nos Estados Unidos. Realizado no Media Education Lab da Universidade de Rhode Island, o Summer Institute in Digital Literacy teve duração de 44 horas e foi coordenado pelas professoras Julie Coiro e Renee Hobbs. A missão brasileira contou também com o apoio do Google.org e da Amplifica, empresa especializada em formação de professores. A delegação brasileira contou com a participação de 13 profissionais de diversas áreas, reforçando que o tema exige uma visão interdisciplinar. Entre educadores, jornalistas, formadores e gestores, tivemos a satisfação de levar, com o apoio da Embaixada Americana no Brasil, cinco professores de diferentes regiões brasileiras. Eles puderam ver de perto inúmeras ferramentas e técnicas que podem ser replicas nas salas de aula rapidamente.

Renee Hobbs fundamenta sua tese de que os brasileiro fizeram a diferença no curso a partir de algumas constatações. A primeira, e a que parece mais relevante, é que estamos formando a primeira geração cidadã, educada em ambiente sem censura, graças à Constituição de 1988. Essa geração precisa entender a mídia, sobretudo a digital, e absorver o que há de melhor na liberdade de expressão e de imprensa. Soma-se o fato de país ter mais aparelhos celulares (209 milhões) do que habitantes e da internet ser de grande importância na comunicação entre as pessoas. Para se ter uma medida da realidade, basta atentar para o papel que as mídias digitais representam na vida cotidiana dos brasileiros, e não apenas em época de eleições.

E há ainda o fato do país já ter dado passos consistentes no rumo da educação midiática por meio do EducaMídia, como a própria Renee Hobbs ressaltou quando aqui esteve em março do ano passado, como representante do programa de educação midiática do Departamento de Estado dos EUA. Na ocasião, ela pode verificar que, em São Paulo, já existem professores sendo preparados, um currículo unificado para educação midiática, além de um trabalho colaborativo sendo incentivado.

Esses são requisitos básicos para uma ação vitoriosa que precisa ganhar escala. Precisamos entender, finalmente, que a educação midiática é um pilar para a construção da cidadania digital e do exercício pleno da liberdade de expressão – valores fundamentais para o fortalecimento da democracia brasileira.

*Patrícia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta.

 

Participantes brasileiros do Summer Insitute in Digital Literacy 2019:

Patricia Blanco
Saula Ramos
Daniela Machado
Mariana Ochs
Carla Arena
Clarissa Bezerra
Marcio Gonçalves
Karla Vidal
Ana Claudia Ferrari
Raquel Stenzel
Dominique Gogolevsky
Estévão Zilioli
Maura Marzocchi

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