Você é o que você curte

Você é o que você curte 1024 521 Instituto Palavra Aberta

As redes sociais trouxeram um novo significado para os verbos curtir, comentar e compartilhar. Estes três verbos representam hoje a nova forma com que nos relacionamos e participamos do mundo digital e, juntos, ganharam um nome específico: engajamento.

O engajamento do usuário é um bem de alto valor nesse ambiente, seja para marcas e empresas, seja para causas sociais e políticas. Também são importantes para as próprias plataformas, pois fornecem informações que ajudam a compor o perfil do usuário, auxiliando na definição de características pessoais e no direcionamento de anúncios e mensagens personalizadas de acordo com a preferência de cada um.

Quem nunca “foi seguido” por um anúncio de sapato depois de pesquisar um modelo em algum site, loja ou buscador? Pois é, ao interagir com um conteúdo, deixamos rastros no ambiente digital. Também conhecidos como pegada digital, a cada clique são registrados e coletados um conjunto de dados e informações sobre nosso perfil a partir de sites visitados, de aplicativos baixados, de postagens, curtidas e compartilhamentos em redes sociais. São registros que permanecem nas redes e que podem trazer muitos benefícios, mas também causar problemas inimagináveis, principalmente quando o conteúdo compartilhado vem carregado de conotação política, opinião controversa e discurso de ódio.

Ao curtir ou compartilhar um post, não estamos só interagindo com aquele determinado conteúdo, mas também endossando pontos de vistas e reforçando posicionamentos. Quase como “assinar embaixo”, o simples ato de curtir pode ter impacto significativo na imagem e na presença digital de qualquer pessoa, arranhando a sua reputação.

Num ambiente de extrema polarização política e de radicalismos como o atual, é preciso ter cuidado redobrado na hora de clicar o botão curtir ou compartilhar para não validar conteúdos que possam impactar ou causar dano não só a outras pessoas, mas também a nós mesmos. É preciso lembrar também que um post compartilhado sem
critério pode trazer repercussão negativa para toda a vida. Exemplos disso não faltam, principalmente entre jovens, com impacto na “vida real” que passam pela perda de vaga em faculdade, perda de um estágio e até mesmo de um emprego.

O endosso de posturas homofóbicas, racistas, misóginas ou carregadas de qualquer preconceito precisa ser encarado com o cuidado e a responsabilidade que o ato exige. No universo de influenciadores digitais e de novos formadores de opinião, é preciso ser bem criterioso e avaliar adequadamente o perfil daquela personalidade antes de apertar o curtir, pois o conteúdo com o qual você interage pode refletir a forma como a sociedade irá te enxergar.

A internet continua sendo um espaço aberto, de conexão entre pessoas, de diferentes pontos de vistas e de possibilidade de acesso a conteúdos dos mais diversos possíveis. A questão a ser entendida é qual o peso de uma curtida.

Essa avaliação pode ser feita a partir de ferramentas de análise crítica da informação, um dos pilares da educação midiática. Cuidar para não aderir a causas que não são nossas e passar a ter uma postura mais responsável nas redes sociais é mais simples do que se imagina. Passa por algumas questões fáceis que podem ajudar na escolha de quais assuntos e páginas merecem mesmo o nosso “like”. São perguntas simples, como estas listadas abaixo:

  • O que você leva em conta ao seguir, curtir ou compartilhar páginas ou
    posts de marcas, personalidades ou influenciadores?
  • Quando você comenta um post, costuma refletir sobre quem poderá ver
    o seu comentário?
  • Costuma avaliar quem é o autor, qual o propósito, qual o contexto e qual
    o impacto daquele conteúdo?
  • Qual a credibilidade daquela informação? É fato, opinião ou outro tipo
    de conteúdo?
  • Como você se sente diante daquele conteúdo?
  • Você já acessou as configurações de privacidade das redes sociais que
    usa?

Ao entender o nosso papel no ambiente conectado, compreendendo que não existem mais barreiras entre o digital e o físico, entre o online e o offline, e que as práticas de curtir, comentar e compartilhar têm consequências reais, estaremos auxiliando a combater a desinformação, o discurso de ódio, a intolerância e a disseminação de conteúdo tóxico.

Assumindo uma postura responsável nas redes, estaremos contribuindo para a melhoria do ambiente informacional e, com isso, reforçando a liberdade de expressão. E claro, protegendo a nossa própria reputação.

 

Patricia Blanco – presidente executiva do Instituto Palavra Aberta