Diretor da RBS preside Fórum de Editores

Marcelo-Rech-_-Foto-ReproducaoMarcelo Rech, que até então ocupava a vice-presidência da entidade, foi escolhido para suceder Erik Bjerager, do Kristeligt Dagblad, de Copenhague.*

Pelos próximos dois anos, o Fórum Mundial de Editores (WEF), que representa cerca de 20 mil executivos e chefes de redação do planeta, será presidido por um brasileiro, o diretor-executivo de Jornalismo do Grupo RBS, Marcelo Rech. A eleição ocorreu no domingo (31 de maio), na véspera do 67º Congresso Mundial de Jornais, que começa nesta segunda (1º de junho) e vai até quarta (3), em Washington, nos Estados Unidos. A escolha foi feita pelo conselho do fórum, formado por líderes de jornais de todo o mundo.

Ligado à Associação Mundial de Jornais (World Association of Newspapers and News Publishers – WAN-Ifra), o Fórum Mundial de Editores atua na defesa da liberdade de imprensa e na promoção da qualidade editorial, da ética e da inovação nas redações. Rech, que até então ocupava a vice-presidência, sucederá o dinamarquês Erik Bjerager, diretor do Kristeligt Dagblad, de Copenhague.

O diretor-executivo de Jornalismo do Grupo RBS será o segundo brasileiro a ocupar a presidência do WEF. Antes dele, a jornalista Ruth de Aquino, atualmente colunista da revista Época, havia passado pelo cargo, nos anos 1990.

Ex-presidente da WAN-Ifra, entre 1996 e 1998, o presidente emérito da RBS, Jayme Sirotsky, exalta a importância da posse de Rech no WEF:

— Há mais de 30 anos, os veículos da RBS estão ligados à WAN em busca de aprimoramento profissional e tecnológico. Isso nos tem colocado em linha com o que há de mais moderno na área. Nesse sentido, nos dá muito orgulho ver um dos nossos profissionais ser reconhecido e eleito para esse cargo, o que vai reforçar a convivência com as mais importantes personalidades da área no mundo e reafirmar nossa postura pelo permanente aperfeiçoamento de nossos veículos e nossas equipes.

Promovido pela WAN-Ifra, em parceria com a Associação de Jornais da América (Newspaper Association of America — NAA), o Congresso Mundial de Jornais é um dos mais prestigiados eventos para profissionais de comunicação no planeta. Além de abordar questões relacionadas à gestão, o congresso discute novos modelos de negócio para o setor. Dois eventos paralelos fazem parte da programação: o Fórum Mundial de Editores e o Fórum Mundial de Publicidade. No total, mais de mil editores, CEOs, diretores de redação, editores-chefes e altos executivos de jornais e meios de comunicação de 80 países devem participar da edição deste ano.

“O papel do jornalista será cada vez mais o de certificador”

Antes de assumir o cargo máximo do WEF, o diretor-executivo de Jornalismo do Grupo RBS concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Como aconteceu com o rádio na época do surgimento da televisão, diz-se hoje que o jornal impresso pode desaparecer com o advento e crescimento da internet. O rádio, como se sabe, sobreviveu. O que acontecerá com o jornal?

A palavra jornal ainda remete, equivocadamente, a um passado restrito à impressão de notícias. Os jornais hoje estão muito além do registro em papel dos fatos ocorridos no dia anterior. Jornais são, antes de tudo, plataformas de produção de conhecimento, de análise, de informações exclusivas, de um jornalismo de alta densidade, que não pode ser encontrado em nenhum outro lugar. E tudo isso em todas as plataformas disponíveis. Jornais com essa visão têm futuro radiante pela frente. ZH, por sinal, é forjada nessa concepção.

Quais os desafios para a sobrevivência do jornal impresso? E as oportunidades de expansão?

O desafio do impresso é se converter em plataforma de análise e interpretação de fatos e fenômenos em ciclos de 24 horas. Quanto mais se tem acesso a retalhos de informação em meios digitais e eletrônicos, mais difícil fica de entender os significados e porquês dos acontecimentos. O dever do impresso é resolver esse problema, decantando fragmentos informativos e gerando uma compreensão completa dos fatos. Revistas devem fazer essa revisão do cotidiano em ciclos de uma semana, enquanto livros podem fazer até com anos de distanciamento.

Como os jornais estão reagindo aos desafios da Era Digital?

Usando o que têm de melhor: seu relacionamento com o público e os anunciantes. E apostando em suas redações para produzir informação diferenciada, premium, em todas as plataformas disponíveis. Os meios digitais expandiram drasticamente o alcance dos jornais. Quando comecei no jornalismo, há 35 anos, nem em sonho a gente podia imaginar que o que a gente escrevia seria lido em minutos no outro lado do mundo.

Segundo a Unesco, em um momento em que “o ambiente da mídia está mudando constantemente com a tecnologia”, é necessário melhorar a qualidade do jornalismo. Além dos jornais, o jornalismo também precisa se reinventar?

Sim, e progressivamente isso está ocorrendo. Jornalismo profissional tem de ser ainda mais profundo, mais preciso, mais independente, mais transparente, para se diferenciar dos oceanos informativos disseminados pelas redes sociais sem selo de origem. O papel do jornalista e dos veículos será cada vez mais o de certificador da realidade, numa espécie de avalista de que fatos e comentários que já circulam por aí são verdadeiros ou não, e em que medida.

Quais os maiores riscos hoje à independência dos jornais?

No mundo livre, é a redução da publicidade. Todas as pesquisas mostram que jornais, impressos ou não, são altamente eficazes na construção de marcas em razão de sua credibilidade, mas nem sempre os anunciantes leem as pesquisas. Se os jornais se enfraquecem, podem se tornar vulneráveis a pressões de governos, empresas ou organizações. Jornais fortes são essenciais para a democracia.

Como você enxerga as ameaças à liberdade de imprensa e ao exercício do jornalismo no Brasil e na América Latina? E como garantir a liberdade de imprensa diante das tentativas de cerceamento do direito à informação?

A América Latina está, infelizmente, vivendo um retrocesso brutal na liberdade de imprensa. Além de Cuba, a Venezuela e o Equador amordaçam a imprensa com toda sorte de pressões. Bolívia e Argentina vão pelo mesmo caminho do “controle social da mídia” para tentar enquadrar a imprensa independente. No Brasil, esta conversa volta e meia reaparece. O que garante a liberdade é que as instituições, e a opinião pública em particular, percebem as manobras e as repelem. Outro problema dramático na América Latina são os assassinatos de jornalistas. O Brasil é o 10º país mais perigoso para jornalistas: desde 1992, 33 foram assassinados aqui, dois deles nas últimas duas semanas. E a impunidade é um dos tantos absurdos que mancham esta parte do mundo.

Que marca você pretende imprimir na presidência do WEF?

Como o fórum reúne líderes de redação de todo o mundo, da Noruega ao Sri Lanka, vamos atuar principalmente no denominador comum: apoiar os editores na transformação dos conteúdos para a era digital e na elevação permanente da qualidade. A solução para o jornalismo não é menos jornalismo: é mais e melhor.

* Fonte Jornal Zero Hora

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