A sociedade de risco e o novo cosmopolitismo

O que pode haver em comum entre os atentados, que interromperam tantas vidas, em Suzano, no interior de São Paulo, e na distante Nova Zelândia, onde 50 pessoas morreram num ato de terrorismo contra duas mesquitas? A internet, é a primeira respostas que parece vir à mente. Mas vamos tentar esboçar algumas respostas diferentes antes de tecer um argumento dessa natureza, embora, afinal, ambos os casos parecem seguir um mesmo padrão macabro, tendo o acusado pelos crimes na
cidade de Christchurch, na ilha Sul da Nova Zelândia, inclusive, transmitido ao vivo, via internet, os momentos iniciais do atentado.

Dois autores parecem indispensáveis para uma melhor reflexão. Um é o pensador e sociólogo francês Edgar Morim que em 2010 dizia, ao referir-se aos saberes necessários à educação neste século: “Conhecer o humano é, antes de tudo, situá-lo no universo, e não separá-lo dele”. Em outras palavras, situar a condição humana no mundo de tantos saberes e tantas informações conflitantes. O outro é o sociólogo alemão, Ulrich Beck, autor de Sociedade de Risco Mundial. Publicado pela primeira vez em 1986, o livro defende a tese de que a nova semântica de risco hoje diz respeito a perigos futuros tematizados no presente, resultantes, “frequentemente dos avanços da civilização”. Assim, as soluções exigiriam o enfrentamento global dos problemas e “iniciativas cosmopolitas”, uma vez que o “risco tem muitos rostos, mas o desafio é sempre o mesmo: controlar o
imprevisível”.

Se as teses de Morin e Ulrich Beck são verdadeiras, e a crônica dos dramas globais parece confirmar, a educação midiática é um antídoto eficaz contra os efeitos negativos da internet. Não há com prever o imprevisível, mas é possível diminuir seus riscos com uma educação para a abundância e diversidade de informação que é uma constante nas sociedades democráticas. Havendo liberdade e narrativas coerentes, é lógico dizer que as possibilidades de ações serão mais humanísticas e integradas, a violência será deixada para trás e as reservas de equilíbrio emocional serão maiores. É impossível prever tragédias como as de Suzano e da Nova Zelândia, mas não é impossível decidir pela construção de um mundo melhor, com mais compreensão e entendimento. Com mais procura do conhecimento próprio e mais questionamento sobre o erro e as ilusões.

Enfim, pensar o futuro como uma possibilidade de protagonismo e não como problemas e conflitos sem solução.

*Patricia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta.

Leituras recomendadas:
BECK, Ulrich.
Sociedade de Risco Mundial, em busca da segurança perdida. Tradução
Marian Toldy e Tereza Toldy. São Paulo, Edições 70, 2015. (e-book).
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessário à educação do futuro. S/n
tradutor. São Paulo: Cortez Editora (UNESCO), 2010. e-book.

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