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A imprensa tem contribuído para combater a corrupção?

A julgar pelo calor dos debates que marcaram o seminário Ética, mídia e transparência: os desafios atuais no combate à corrupção, a resposta é afirmativa, o que não exime a mídia de severa autocrítica.

O ponto de partida poderia ser o aprofundamento de uma prática essencial ao jornalismo: a checagem de informações. Sobretudo, nesse momento marcado pela abundante circulação de fake news, as notícias falsas. Nada que envolva denúncias deve ser divulgado sem antes passar pelo crivo da conferência de informações. Principalmente, se derivarem de delações premiadas ou vazamentos de informações. A propósito: é oportuno assistir ou voltar a assistir Todos os homens do presidente, filme sobre o caso Watergate que culminou com a queda do presidente norte-americano Richard Nixon. As informações – passadas em off por uma fonte anônima, que ficou conhecida como garganta profunda – só eram publicadas pelo jornal Washington Post depois de confirmadas, três vezes, por diferentes fontes. Watergate (1972) foi um precursor e, como legado, deixou a lei anticorrupção nos Estados Unidos. Vale à pena ver de novo.

Neste momento de luta contra a corrupção deveria ocorrer, entre nós, algo parecido com os critérios criados, à época, pelo Washington Post? Seja qual o critério jornalístico escolhido, um cuidado parece certo: com os nomes, de pessoas ou empresas, pois o estigma de corrupto envolve a candente questão da reputação. Por isso, envolve cuidados específicos. É uma questão ética e da ética kantiana da responsabilidade, aquela que transcende as leis, abordada pela ética da responsabilidade, e só coloca diante do cuidado com o outro.

Claro, há muito a ser revisto. A rigor o tema da corrupção frequenta os espaços da mídia desde a década de 1970. A novidade dos dias atuais, movidos pela Operação Lava Jato, é a amplitude que alcançou. Todos os casos do passado, se vistos comparativamente, são pequenos em relação ao que vem sendo revelado pelas mais de 40 fases da Operação.

Entre um momento e outro, a imprensa, além de acompanhar os fatos, questionou-se, por exemplo: por que as apurações de iniciativas próprias são tão raras e os vazamentos, inclusive aqueles que os repórteres chamam de oficiais, tão frequentes? Uma pergunta puxa a outra: os vazamentos de informações são confiáveis?

Essa é uma questão que se impõe há uma década, quando, na Itália, começaram a discutir os impactos da Operação Mãos Limpas. Agora, que a história se repete não em farsa, mas em tragédia para os indiciados e condenados da Lava Jato, o desafio da imprensa é o que fazer? Separar o trigo do joio e publicar o joio como recomenda as boas práticas do jornalismo?

Evidente que sim.  O combate à corrupção precisa de divulgação para que no Brasil, a exemplo do que aconteceu na Itália, se conquiste o respaldo da opinião pública. Mas, e os riscos? A ideia é que sejam superados no processo. Só havendo liberdade de expressão e de imprensa é que a mídia pode contribuir para o combate à corrupção. Há erros? Há. Existem pressões de todos os lados? Sim. Não é um ambiente, até pelos interesses em jogo, de anjos e arcanjos. O importante, porém, é que haja liberdade e as portas estejam sempre abertas para corrigir práticas e rever erros.

O painel que tratou da mídia e o candente tema da corrupção reuniu os jornalistas Sérgio D’Ávila (editor-executivo da Folha de S.Paulo), Diego Escosteguy (editor-chefe da revista Época), e o professor Fernando Schüler, (responsável pela Cátedra Insper e Palavra Aberta de Liberdade de Expressão). Foi um momento singular no seminário, que nos seus diferentes painéis, se prolongou por toda uma tarde das mais enriquecedoras.

Assista na íntegra o vídeo do evento:

https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/etica-midia-e-transparencia-os-desafios-atuais-no-combate-a-corrupcao/

 

* Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política PUC/SP

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