
Encontro aponta caminhos para formar jovens críticos, com habilidades para desenvolver conhecimento na era da IA e da desinformação
Encontro aponta caminhos para formar jovens críticos, com habilidades para desenvolver conhecimento na era da IA e da desinformação https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/instituto-palavra-aberta-4o-encontro-124-1024x684.jpg 1024 684 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/instituto-palavra-aberta-4o-encontro-124-1024x684.jpgO pesquisador Luis Francisco Vargas-Madriz, especialista do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), apresentou, nesta quinta-feira (21), em São Paulo, os detalhes da mais significativa mudança no principal exame comparativo da educação global. O Pisa, conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), avalia estudantes de 15 anos em dezenas de países e orienta políticas públicas ao medir competências essenciais para a vida adulta. A partir de 2029, o exame incorpora a avaliação integrada de alfabetização midiática e inteligência artificial, ampliando o escopo da medição educacional global. A mudança redefine o que se espera da formação das novas gerações em um mundo marcado por sistemas automatizados e decisões mediadas por tecnologia. A proposta busca formar jovens com senso crítico e capazes de preservar autonomia intelectual, criatividade, memória histórica, capacidade de invenção e aprendizagem contínua ao longo da vida adulta, enfrentando a desinformação em massa no meio digital, apontada pela Organização das Nações Unidas como o grande mal deste século.
A apresentação ocorreu durante o 4º Encontro Internacional de Educação Midiática, realizado pelo Instituto Palavra Aberta, na ESPM, reunindo especialistas nacionais e internacionais da área educacional. A curadoria e coordenação dos debates ficou a cargo da presidente do Instituto Palavra Aberta, Patrícia Blanco, junto da equipe da entidade. O evento reuniu governo, academia, organizações da sociedade civil e plataformas digitais em torno da formação de estudantes para lidar com informação e tecnologia.
O eixo Media and AI Literacy (MAIL) do Pisa considera a presença permanente de sistemas automatizados na vida social, econômica e política. A avaliação mede se os estudantes usam essas ferramentas com senso crítico, responsabilidade, autonomia intelectual e capacidade de decisão informada.
Segundo Vargas-Madriz, a mudança altera o tipo de formação esperado da escola, ao incluir habilidades que vão além do conteúdo tradicional das disciplinas clássicas. “O Pisa 2029 busca avaliar se os estudantes conseguem tomar decisões informadas, interpretar informações em ambientes digitais complexos e preservar capacidades humanas como julgamento, ética e criatividade em um mundo mediado por inteligência artificial”, disse.
De fato, o Pisa 2029 observa se os jovens mantêm capacidades humanas diante da automação crescente em diferentes áreas da vida social e profissional. Isso inclui julgamento, ética, criatividade, responsabilidade e consciência social em contextos mediados por tecnologia digital. A proposta considera que a tecnologia pode ampliar ou reduzir essas capacidades humanas, dependendo das formas de uso e das condições de acesso.
O desenho da avaliação simula situações reais do cotidiano digital de adolescentes em diferentes países. Os estudantes decidem sobre compartilhamento de dados pessoais, avaliam riscos, analisam conteúdos de influenciadores e diferenciam fato de opinião em ambientes digitais complexos. Também realizam verificação de informações por comparação de fontes diversas, prática conhecida como leitura lateral. Em um dos cenários, atuam como profissionais de redação jornalística e precisam checar dados antes da publicação.
A proposta inclui leitura crítica estruturada com base em critérios de análise da informação digital. Os estudantes analisam propósito da mensagem, autoria, possíveis edições e confiabilidade das informações. Também identificam conteúdos gerados por sistemas automatizados e compreendem como algoritmos influenciam circulação de informação e formação de opinião.
A estrutura mantém leitura, matemática e ciências e adiciona tarefas com texto, imagem e vídeo em ambientes digitais simulados. Os cenários incluem aprendizagem, entretenimento, persuasão e cidadania digital em diferentes contextos sociais e culturais. Questionários complementares analisam comportamento online, privacidade e acesso, com atenção às desigualdades educacionais.
A dimensão ética ganha peso ao considerar o impacto das decisões individuais no ambiente digital coletivo. O exame observa se os alunos entendem consequências de suas escolhas e se atuam com responsabilidade em situações reais de uso da informação. O modelo dialoga com liberdade de expressão, direitos civis, inclusão social e desenvolvimento sustentável. A tecnologia aparece como ferramenta para ampliar capacidades humanas, não como substituição de processos cognitivos e sociais fundamentais.
Para Vargas-Madriz, o desafio envolve orientar o uso da tecnologia dentro de sistemas educacionais em adaptação. A avaliação aponta um caminho em que o humano mantém papel central, com uso equilibrado de ferramentas digitais na aprendizagem. O Pisa 2029 busca medir se a escola forma indivíduos capazes de pensar, decidir e agir com responsabilidade em contextos digitais complexos.
Mais inclusão e direitos
Especialistas que participaram do encontro ampliaram o diagnóstico e apresentaram caminhos para a implementação da educação midiática no sistema educacional brasileiro.
Adauto Soares, coordenador do Setor de Comunicação e Informação da Unesco, afirmou: “A educação midiática precisa alcançar mais redes de ensino e dialogar com diferentes setores da sociedade para gerar impacto consistente”. Ele defendeu articulação entre governos, escolas e organizações da sociedade civil.
Defendeu ainda o direito à informação qualificada, com acesso amplo a conteúdos confiáveis como condição básica para participação social, garantia de direitos e da democracia. Enfatizou que é necessário políticas públicas voltadas à segurança informacional e redução de riscos ligados à desinformação.
Bruno Ferreira, coordenador pedagógico do EducaMídia, lembrou que há pouco apoio aos professores, agentes decisivos nas mudanças propostas para ampliar a educação midiática. “A maioria dos professores aprende sozinha sobre tecnologias digitais, o que mostra ausência de políticas estruturadas de formação continuada nas redes de ensino”. Ele destacou que, sem o professor envolvido na construção, a “implementação não se sustenta no cotidiano escolar”.
Carla Aragão, diretora de Inovação e Tecnologia do Instituto Anísio Teixeira, sustentou que a tecnologia com orientação pedagógica pode combater com mais eficiência as desigualdades entre estudantes de diferentes contextos sociais.
David Almansa Bernardo, diretor do Departamento de Direitos na Rede e Educação Midiática da Secretaria de Comunicação Social do governo federal, defendeu a conectividade nas escolas públicas. “Há avanço na formação de professores, na inclusão do tema nas licenciaturas”. Ele reconheceu, entretanto, que há um longo caminho pela frente.
Douglas de Oliveira Calixto, jornalista e pesquisador, disse que a IA não pode ser vista apenas como uma ferramenta. “Hoje qualquer pessoa produz conteúdo em escala ampla, o que exige capacidade de análise crítica e verificação constante das informações disponíveis”, afirmou. Para ele, a tecnologia tem de ser vista como um complemento da atividade humana.
Flora Ariza, consultora da Unesco para o Ministério da Educação, defendeu a transversalidade da literância de mídias. “A educação midiática precisa estar presente em todas as áreas do conhecimento e não pode ser tratada como conteúdo isolado dentro do currículo”.
Mariana Ochs, coordenadora pedagógica do EducaMídia, afirmou que a prática cotidiana é fundamental. “O estudante precisa produzir conteúdo, analisar informações e discutir processos para desenvolver competências críticas relacionadas ao uso de mídias”.
Paulo Jubilut, educador e criador de conteúdo educacional em plataformas digitais, disse que a sociedade e as plataformas precisam compreeder o funcionamento do cérebro humano e promover iniciativas que incentivem os pensamentos mais críticos, cuidadosos e positivos. “Conteúdos com números específicos, senso de urgência e apelo emocional aumentam a chance de compartilhamento sem verificação prévia”, comentou. Ele também disse que é preciso acolhimento inteligente nas escolas, com respeito às realidades diversas. “Estudantes chegam à escola sob condições de estresse, fome ou violência, o que afeta diretamente a capacidade de atenção e aprendizagem”.
Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet (CGI) no Brasil, destacou a importância da transparência. “É necessário discutir regras, transparência e proteção de direitos no ambiente digital, considerando o impacto das plataformas na sociedade”.
Sabrina Generali, doutora em Comunicação e Práticas de Consumo, também disse que as políticas públicas têm de compreender os impactos dos conteúdos e vivências. “O consumo de informação envolve emoção, hábitos e contexto social, fatores que precisam ser considerados em estratégias de educação midiática”.
O encontro reuniu representantes de governo, academia, plataformas digitais e organizações da sociedade civil em torno da formação de jovens capazes de lidar com informação, tecnologia e participação social.
Realização: Instituto Palavra Aberta
Patrocínio: YouTube Brasil
Apoio: ESPM, Fundação Roberto Marinho, Jeduca, CBN, Coalizão em Defesa do Jornalismo, ANER, ABAP, ABERT, ANJ e Porvir
Cooperação: UNESCO Brasil