
De literatura nas redes sociais a IAs no pátio da escola: os caminhos da educação midiática
De literatura nas redes sociais a IAs no pátio da escola: os caminhos da educação midiática https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/instituto-palavra-aberta-4o-encontro-169-1024x684.jpg 1024 684 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/instituto-palavra-aberta-4o-encontro-169-1024x684.jpgDaniela Machado é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta
Guiado pela professora de inglês, um grupo de crianças de seis anos sai pelo pátio de uma escola no Rio de Janeiro com uma ferramenta de inteligência artificial que reconhece espécies de plantas. O aplicativo classifica como pé de acerola uma árvore carregada de pitangas, levando os estudantes a uma curiosa conversa sobre como a IA nem sempre fornece respostas certas.
No interior de Alagoas, uma turma de adolescentes do Ensino Médio pouco animada para uma atividade de leitura de “Vidas Secas” motiva a professora de língua portuguesa a criar um projeto que relaciona a apreciação da obra com as redes sociais. Alunos e alunas, então, criam perfis para os principais personagens, num processo que envolve reflexões sobre por que estar no Instagram, o que postar, para quem se dirigir e quais as consequências da presença digital.
E quem diria que Miguel de Cervantes, ao escrever “Dom Quixote” em 1605, nos daria farto material para discutir temas como ausência de senso crítico, viés de confirmação e filtros de beleza na internet? Uma professora de espanhol de uma escola em São Paulo propõe aos estudantes a análise do clássico à luz de desafios contemporâneos. No caminho, promove debates sobre por que tendemos a acreditar em informações que comprovam nossas crenças pré-existentes em vez de buscar evidências e analisá-las criticamente ou quais são as consequências de consumir frequentemente conteúdos que determinam um padrão de beleza.
Esses três exemplos mostram como são variadas as possibilidades de inserção da educação digital e midiática nos currículos da educação básica e foram apresentados na semana passada no 4o Encontro Internacional de Educação Midiática. A partir deste ano, esse componente torna-se obrigatório nas escolas brasileiras, de acordo com as diretrizes já anunciadas pelo Ministério da Educação.
Embora as escolas tenham a opção de trabalhar esses saberes em uma disciplina ou projeto independente, os relatos acima mostram como é potente a inclusão de temas da educação midiática nos conteúdos que já são desenvolvidos em sala de aula, de maneira transversal. Um caminho possível é identificar no conteúdo pedagógico existente oportunidades de concatená-lo com tópicos como integridade da informação, uso crítico das IAs e participação segura e consciente nas redes sociais, entre tantos outros.
Os exemplos também mostram que não é preciso reformular completamente o planejamento escolar ou o material pedagógico, de um dia para outro. É preciso, sim, uma gestão engajada, formação para os professores e o senso de que a proteção de crianças e adolescentes na internet passa, necessariamente, pela educação.
*Os projetos citados neste texto foram desenvolvidos por: Michelly Baptista, professora de Inglês no Rio de Janeiro (RJ); Daiane Barbosa, professora de Língua Portuguesa em Boca da Mata (AL), e Vanessa Ingegneri, professora de Espanhol em São Paulo (SP).