Como ensinar os alunos a confiarem na imprensa?

Como ensinar os alunos a confiarem na imprensa? 630 545 Instituto Palavra Aberta
Mariana Mandelli*

“É verdade, eu vi na internet”. Quantas vezes já ouvimos essa frase ao questionar a origem de uma informação? Substitua “internet” por algo mais específico, como o nome de alguma plataforma social, e o resultado revela o mesmo diagnóstico: cada vez mais as pessoas se informam por esses meios e, consequentemente, encaram como verdade aquilo que é compartilhado na timeline do Facebook ou enviado pelo WhatsApp.

Quando pensamos que 91% dos brasileiros afirmam usar a internet para tomar conhecimento do que ocorre no País e no mundo, temos a dimensão do cenário. A alta porcentagem, que aparece no último relatório do Instituto Reuters da Universidade de Oxford, é acompanhada por outra taxa que confirma o primeiro parágrafo deste artigo: 72% da nossa população lê notícias nas redes sociais, o que não significa necessariamente que estejam se informando nas páginas oficiais dos veículos de jornalismo profissional.

É importante dizer que não se trata de condenar a internet como meio para se informar — afinal, os próprios veículos de credibilidade estão lá. O problema está em achar que a web é homogênea e que a infinidade de conteúdos ali disponíveis reflete a realidade apenas porque concordamos com deles.

Não é de hoje que se fala em pós-verdade. O termo foi tão exaustivamente discutido nos últimos anos que chegou a ser escolhido como a principal expressão de 2016 pela Oxford Dictionaries, departamento da universidade de mesmo nome (em inglês, seria “post-truth”).

De acordo com a entidade, pós-verdade é tudo aquilo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Ou seja: os fatos estão valendo menos do que as nossas opiniões e ideologias pessoais. A verdade importa menos do que o meu juízo de valor sobre ela.

Um dos efeitos mais nefastos disso tudo é falta de credibilidade da imprensa, um dos ingredientes mais abundantes nesse caldeirão fervilhante e de sabor amargo que é a desinformação (ou “fake news”, termo mais popular). Tal cenário inclui um aumento considerável nos ataques a jornalistas e veículos, moral e fisicamente: no Brasil, entre 2017 e 2018, casos de agressões a jornalistas cresceram 36,36%, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Enquanto isso, a confiança no que é veiculado pelas redes sociais tem aumentado, como mostra uma pesquisa de 2017 da Fundação Getúlio Vargas (FGV) com os dados do ICJBrasil (Índice de Confiança na Justiça). De acordo com o estudo, a confiabilidade nessas plataformas subiu 61% em dois anos.

Tal contexto é agravado por um dos maiores benefícios da digitalização da comunicação: a ideia de que todos somos produtores de conteúdo.

Com a facilidade que temos hoje para criar um blog, canal de YouTube ou podcast, para citar apenas alguns recursos, deixamos o posto fixo de receptores de informação para sermos autores, emitindo opiniões e compartilhando ideias.

Tudo isso é ótimo pois empodera os usuários. Porém, tal mudança de paradigma não significa que sejamos todos jornalistas, ou que a página daquele amigo ou conhecido seja baseada em imparcialidade e profissionalismo, com o compromisso de apenas informar ou analisar fatos — e não de convencer ou disseminar um determinado ponto de vista.

O limite entre questionar a origem de uma informação e desacreditar veículos jornalísticos mostra-se demasiadamente tênue nos dias de hoje. A imprensa deve, sim, ser criticada sempre, e não defendida a qualquer custo.

Assim como ela “vigia” o poder público, a audiência deveria ser guardiã da qualidade do jornalismo oferecido por ela. Mas, para criticar de modo assertivo, é preciso entender realmente como funciona o trabalho jornalístico.

Ora, se os pais e mães não valorizam o trabalho da imprensa, como seus filhos — ou seja, as futuras gerações de cidadãos — confiarão nele?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) abraça essa questão, atribuindo essa missão à escola. A ênfase no tema é visível especialmente no campo jornalístico-midiático do documento, na parte de língua portuguesa, propondo que a prática jornalística seja compreendida como a investigação e a divulgação de informações de interesse público, em diferentes formatos e veículos.

Além disso, a base traz a percepção de que o jornalismo é fundamental na democracia, por seu papel de observador permanente das ações exercidas pelos representantes políticos.

Vale lembrar que valorizar o jornalismo por meio de atividades de educação midiática na escola vai além de apenas usar trechos de notícias em questões de prova, recurso bastante comum (e não por isso menos importante) nas avaliações.

É preciso que os alunos entendam os gêneros jornalísticos (entrevista, reportagem, etc), o processo de apuração, as regras e os valores da profissão (como confidencialidade da fonte, ética, a tão buscada imparcialidade e outros), para terem a dimensão da importância de se consumir informação de qualidade. Para isso, os professores podem atuar de diversas maneiras em consonância com o que exige a BNCC.

Montar oficinas de checagem com os alunos, utilizando conteúdos duvidosos que circulam no ambiente virtual para serem apurados como ocorre na prática jornalística, é uma opção óbvia, porém interessante. Muitos veículos já contam com seus próprios projetos nessa linha, e podem ser avaliados pela turma em comparação com o jornalismo produzido por esses mesmos meios de comunicação.

Mostrar aos estudantes como colaborar para a construção de um jornalismo mais participativo também pode ser uma boa pedida. Se nossos smartphones permitem que façamos fotos e filmes em tempo real, por que não discutir com os jovens como utilizar isso a favor da informação? Isso pode enriquecer o trabalho do jornalismo profissional, como ocorreu com os relatos dos moradores de Paraisópolis em dezembro, quando nove jovens morreram em um baile funk.

É interessante também que os alunos tomem contato com os manuais de redação dos veículos tradicionais. Os manuais são publicações institucionais muito importantes porque mostram para o público qual a identidade da empresa em questão, bem como suas regras e valores, que vão desde normas de estilo de escrita a orientações de como proceder em reportagens investigativas. Os livros podem ser encontrados em livrarias ou mesmo em versões online, e funcionam como uma leitura bastante didática do universo jornalístico.

Organizar atividades de pesquisa com as turmas para que busquem o histórico das principais empresas jornalísticas do País também é uma sugestão para apurar o senso crítico dos estudantes, colocando em debate o tão discutido jogo de interesses da mídia. Como contraponto, apresentar iniciativas de jornalismo cidadão e independente também pode ser uma ótima pedida para que os estudantes vejam suas realidades refletidas ali.

Em suma: crianças e jovens devem aprender a questionar de modo qualificado a imprensa, e não a deslegitimá-la. A atividade jornalística precisa ser valorizada pois conta com técnicas especializadas e equipes formadas e treinadas para desempenharem esse papel. E, como em todas as profissões exercidas por humanos, tal prática também está sujeita ao erro. Cabe ao público cobrar qualidade e ética — e não pedir o seu fim. Desqualificar o jornalismo é desqualificar a democracia, e a escola não pode corroborar com esse processo.

 

* Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

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