Crônicas do irrealismo cotidiano

Crônicas do irrealismo cotidiano 630 350 Instituto Palavra Aberta

Francisco Viana*

“Não somente os indivíduos, mas a própria sociedade vive em um contínuo processo de precarização” – Umberto Eco

umberto-eco-livroÉ um livro para ler, guardar e consultar sempre. De título enigmático, de significado desconhecido para nós, Pape Satàn Aleppe – pode ser palavras que confundem as ideias e servir de pretexto para qualquer diabrura, segundo Platão – , crônicas de uma sociedade líquida, o derradeiro livro de Umberto Eco (1932-2016), reúne as suas crônica no L’ Expresso entre 2000 e 2015.
Pelas suas 419 paginas desfilam temas de vasta atualidade para nós brasileiros, nesses tempos de polarização política, como o ódio, a morte, o amor, a estupidez, a loucura, o racismo, celulares on line, religião e filosofia. Revelam Eco como uma das mentes filosófica mais agudas do nosso tempo, capaz de pensar o transcendente e, também, o cotidiano, sempre nos despertando para essa Arcádia – a terra da utopia de Homero -onde o grande progresso não é o avanço incessante da tecnologia, mas a possibilidade de prolongar a vida. Eco diz, depois de lembrar que Alexandre Magno morreu aos 30, Mozart aos 36, Chopin aos 39, Spinoza aos 45, Tomás de Aquino aos 49, Shakespeare aos 52 e Hegel, “velhíssimos”, aos 61:
“Muitos dos problemas que devemos enfrentar hoje têm relação com o aumento do tempo médio de vida (…). Um jovem pode pensar que o progresso é aquilo que lhe permite enviar recadinho pelo celular ou voar barato para New York, enquanto o fato surpreendente (e o problema não resolvido ) é que, se tudo correr bem, ele só precisará se preparar para ser adulto aos 40 anos, enquanto seus antepassados tinham de fazê-lo aos 16.
Isso, claro, muda tudo. Vai, além, muito além, das aposentadorias. E do império das redes sociais.
As crônicas de Eco escrutinam igualmente dois temas candentes da atualidade: o amor e o ódio. O amor primeiro: o amor é prioritariamente individual, “propriamente dito egoísta, possessivo, seletivo”. O ódio, tão vivo no Brasil dos dias atuais, nas versões que vão do racismo à homofobia e ao ódio de classe, é coletivo e abraça “imensas multidões” . Eis porque a história da nossa espécie sempre foi marcada “antes pelo ódio e pelas guerras e pelos massacres do que pelos atos de amor (menos confortável e muitas vezes exigentíssimos quando insiste em ir além do círculo do nosso egoísmo).
“Nossa propensão às delícias do ódio é tão natural que é fácil para os governantes dos povos cultivá-las, enquanto ao amor só nos convidam esses seres incômodos que têm o hábito desgostoso de beijar os leprosos.”
O amor é um bem que está desaparecendo. Como o silêncio, a fraternidade e a solidariedade. Por que? Será assim amanhã? O tempo dirá … Voltarei ao tema.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política ( Puc- Sp).