Desinformação não é guerra, mas é a política por outros meios

Carlos Alves Müller

Qualquer que fosse o resultado da votação para presidente da república do dia 28 de outubro, o que a distingue em relação às precedentes no país e no exterior não foi o perfil do vencedor ou de seus projetos políticos (de resto pouco debatidos), mas o papel desempenhado pela manipulação da informação. Esta esteve em mais evidência que os programas dos candidatos, tornando-se a protagonista da eleição, mais que os próprios postulantes à presidência.

Como constataram as entidades de checagem de veracidade de informações, algumas reportagens e observadores internacionais, houve uma torrente de informações falsas. Acima de tudo, tratou-se de, mais do que promover propostas eleitorais, desinformar, desqualificar, caluniar, injuriar e difamar por meio das redes sociais. Em inúmeros casos, tais mensagens não partiram dos próprios candidatos, mas de seus apoiadores explícitos ou ocultos, o que torna o problema ainda mais grave, posto que de difícil enfrentamento.

Por meio das redes sociais, em particular do Facebook e principalmente do Whatsapp, tais mensagens chegavam aos eleitores vindas de pessoas com as quais mantêm relações pessoais, donde sua suposta credibilidade, embora antes disso fossem avassaladoramente impulsionados, compartilhados, reenviados e comentados por pessoas ou “robôs” dificilmente rastreáveis no momento em que eram recebidos e de forma alguma depois.

A maioria dessas mensagens favoreceu o candidato que seria o vencedor. As pesquisas e a cobertura dos mais respeitados veículos de comunicação nacionais e estrangeiros e as manifestações de representantes de organismos internacionais o confirmam. Vide, para citar apenas alguns: Organização dos Estados Americanos, BBC e Deutsche Welle (os dois últimos veículos noticiosos estatais da Grã-Bretanha e da Alemanha, que não podem razoavelmente ser considerados alinhados ao candidato derrotado). Paradoxalmente, o Tribunal Superior Eleitoral, responsável pela realização e fiscalização das eleições e que acolheu, mas ainda não julgou denúncias sobre a ilegalidade de várias iniciativas de propaganda eleitoral, minimizou o impacto dessas ações.

Isso significa afirmar que o resultado da eleição teria sido outro se não tivesse ocorrido manipulação de tamanha magnitude?

Não. Não se pode afirmar isso por vários motivos. Alguns, relacionados ao que tem sido chamado de guinada conservadora da sociedade brasileira e de onda anti-PT, têm sido mais frequentemente mencionados pelos analistas e cientistas políticos e não cabe discuti-los aqui. O mesmo se pode dizer das estratégias eleitorais dos candidatos e seus partidos/coligações desde o início da campanha. Para chegar à conclusão de que a manipulação da informação pelas redes sociais foi a causa, decisiva, responsável pela vitória de um dos candidatos, seria necessário supor que todo o resto ou foi inócuo ou secundário. Nada autoriza esse raciocínio que, aliás, não é endossado pelos dirigentes mais lúcidos do partido derrotado.

Atendo-se à questão de como as mídias sociais foram utilizadas tendo por base o que se sabe a respeito de sua utilização no Brasil neste período (muito pouco ainda) e em eleições em outros países (algo mais), pode-se afirmar que as informações, verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou falsas, transmitidas pelas redes sociais não levam os eleitores que já escolheram seus candidatos a mudar radicalmente suas opções.

No caso de uma disputa polarizada como a que tivemos, o efeito principal é o de consolidar uma tendência de voto, ou a aprofundar a dúvida. Para os que estavam em dúvida mas com alguma inclinação, pode ter incentivado a definição nesse sentido. O mesmo pode ter ocorrido, em sentido contrário, no caso de tendência de rejeição de um dos candidatos. Receptores de mensagens desse tipo, muitos eleitores “órfãos” de candidatos que ficaram no primeiro turno ou mais firmemente descontentes com a alternativa que lhes era oferecida, talvez tenham optado pela omissão.

Essa pode ser uma explicação para o número recorde de abstenções. Para os impulsionadores desse tipo de mensagens, não era “mau negócio”. Se não era possível “ganhar” o eleitor, que pelo menos este não optasse pelo rival. Comprovadamente foi isso o que ocorreu em 2016, nas eleições presidenciais dos EUA, quando a máquina eleitoral do candidato republicano Donald Trump tratou de dissuadir negros, latinos e pobres que dificilmente chegariam a votar nele a não votar pela candidata democrata Hillary Clinton.

Levará algum tempo para que se saiba com alguma segurança o que ocorreu nas eleições brasileiras deste ano no que se refere ao uso político das redes sociais e dado o dinamismo do desenvolvimento tecnológico e de suas aplicações com este fim e quando se souber, já não estará sendo usado da mesma forma. O fundamental é que nunca mais se fará política como antigamente, isto é, há quatro anos.

A tecnologia remodela a política

Como observa o historiador e cientista político alemão Yascha Mounk, sócio do centro de pesquisa New America, a tecnologia está remodelando a política nos países democráticos de forma que os aspirantes ao poder já não precisam ter acesso a grandes recursos e a organizações bem estabelecidas para suas campanhas. No passado, nas democracias consolidadas, a cultura política e o conjunto de instituições, entre as quais o sistema partidário e a imprensa, delimitavam um campo de ação que tornava extremamente difícil a ascensão de “outsiders”, extremistas e estrafalários.

O surgimento e evolução vertiginosa da internet e das redes sociais tornaram possível que grupos minoritários e partidários de causas nobres, mas sem meios de ação pública se organizassem e difundissem seus projetos. Em contrapartida, viabilizaram os projetos “antissistema” e seus líderes. Tornou-se possível arregimentar e mobilizar militantes de forma direta, sem a mediação de veículos de comunicação, estruturas partidárias e recursos elevados.

A mudança não é apenas tecnológica. Lideranças e projetos extravagantes como os que têm surgido em várias democracias, precisamente por seu caráter antissistêmico e devido aos meios que empregam para difundir sua pregação, não apresentam programas consistentes a serem analisados e discutidos com base em dados e reflexões. Sua ação política apela ao que o fundador da psicologia analítica, Carl Jung designava por “arquétipos”, ao que está em nosso inconsciente coletivo mais recôndito e se manifesta em nossos, sonhos, medos, desejos e pavores.

O apelo a tais sentimentos – que por vezes até repudiamos conscientemente –, não é eficaz por meio de argumentos e apelos à razão, mas de clichês, chavões, escolha de bodes expiatórios (“inimigo do povo”, como se referiu Trump a um jornalista em 7/11) desqualificação das instituições, pessoas e notícias (“fake news” é a expressão preferida diante de notícias adversas, dispensando a refutação por meio de provas ou argumentos, como têm feito todos os governantes autoritários contemporâneos) etc.

A mentira, nesse contexto, não é um erro ou uma tentativa de fazer com que desinformados acreditem, mas um ato deliberado. É uma afirmação para os seguidores que não discutirão o conteúdo. Pode raiar o ridículo, como fez Trump perante à Assembleia Geral da ONU ao afirmar que “Em menos de dois anos, minha administração conquistou mais do que quase qualquer outra administração na história do nosso país”, provocando gargalhadas pouco diplomáticas como reação.

Outro exemplo ilustrativo foi protagonizado pelo presidente eleito do Brasil, que publicou no dia 4/11, em sua página no Twitter uma foto de Fernando Henrique Cardoso recostado numa poltrona, segurando o livro “Prisioner of the State – The secret Journal of chinese premier Zhao Ziyang”.  Sem legenda, gerou comentários de seguidores de Bolsonaro afirmando que FHC era adepto do comunismo, pois o livro é um diário do ex-Primeiro Ministro Chinês.

FHC respondeu no dia seguinte, também pelo Twitter: “A desinformação é péssima conselheira, sobretudo vinda dos poderosos”. O que o primeiro sociólogo da República aparentemente não entendeu ou fingiu não entender é que não se tratava de desinformação no sentido de “falta de informação”, mas de desinformação no sentido de manipulação no mais puro estilo Chacrinha: “Eu não vim para explicar. Vim para confundir”…

A manipulação como política por outros meios

Segundo um conhecido aforisma do grande estrategista e pensador da guerra prussiano, Clausewitz, “a guerra nada mais é do que a continuação da política com outros meios”. Cerca de 200 anos depois, pode-se dizer que a manipulação da informação por meio das redes sociais nada mais é do que a continuação da política com outros meios, os digitais. Essa é a chave da política nos tempos atuais. E como demonstram Trump & Cia, não se trata apenas de uma estratégia eleitoral. É um elemento estrutural da busca e do exercício do poder nesta segunda década do século XXI. Sendo estrutural, está fadado a não ser um fenômeno efêmero, mas de duração e consequências imprevisíveis.

Não é, pois, uma questão simples. Como evidenciado na recente eleição brasileira, combater a manipulação não é tarefa simples, a checagem das informações, por mais eficiente que seja – e foram bastante, cobre apenas uma pequena parcela do que é difundido e alcança somente uma parcela da população, não por acaso a que está mais apta a questionar o que recebe. Além disso, as ferramentas e expedientes utilizados são cada vez mais sofisticados e difíceis de identificar. Isso se torna praticamente impossível sem a colaboração das empresas responsáveis pelas redes.

Devido às suas práticas monopolistas, suas fraudes de todo tipo e sua displicência em relação a crimes praticados por meio de suas plataformas (o caso mais grave e atual é o da comprovada limpeza étnica e massacre praticado em Mianmar contra o povo Rohingya instigado e promovido por meio do Facebook), essas gigantes de tecnologia estão sob assédio de vários governos, em especial na Europa.

Até agora, Facebook e suas controladas (WhatsApp e Instagram), Twitter etc. têm resistido a agir de forma efetiva e eficaz para conter a manipulação da informação. O principal motivo disso é que iniciativas com esse objetivo teriam grande impacto sobre seus modelos de negócio. Diante disso, as ações que realizam não passam de paliativos, na melhor das hipóteses, como acaba de ocorrer: depois das denúncias no Brasil, algumas contas foram bloqueadas.

Não por acaso, na mesma semana, o Facebook apresentou o que chamou pomposamente de “war room” – sala de guerra – (foto) cujo objetivo seria dar um combate eficiente à manipulação por meio de suas redes (o próprio Facebook e WhastApp, principalmente) com o objetivo de interferir nas eleições brasileira e norte-americana (com direito a decoração com as bandeiras dos dois países e outros efeitos vistosos). Nada muito além do que vários sites especializados chamaram de uma operação de marketing.

Tim Berners-Lee, inventor da World Wide Web, ainda tem esperança de convencer as gigantes tecnológicas, os governos e outros grandes interessados a voluntariamente regularem as atividades na internet por meio do que chama de “contrato para a Web”, contendo um conjunto de princípios para defender a liberdade e abertura da internet, contendo alguns dos piores abusos. Ele não descarta, contudo, que isso exija que as empresas sejam desmembradas a fim de reduzir seu poderio. Enquanto algo não for feito, a manipulação prosseguirá.

George Orwell, autor da distopia 1984, tão lembrada atualmente em função do poderio das gigantes de tecnologia sobre a vida das pessoas, afirmou certa ocasião, como lembra o já citado Mounk, que “quem está vencendo sempre parecerá invencível”. Isso se aplica às empresas de tecnologia e à política tal como passou a ser feita por meio delas.

 A democracia sob ameaça e o papel da informação

Mounk é o autor do livro “The People vs. Democracy” (edição em espanhol “El pueblo contra la democracia – Por qué nuestra libertad está em peligro y como salvarla”) no qual elabora um panorama sombrio para as democracias liberais contemporâneas, comparando-as à crise e colapso da República Romana. Ainda assim, ele vislumbra uma solução positiva:

“… quando os populistas conquistarem o governo e começarem a não cumprir muitas de suas promessas, pode ser que tenham que provar de seu próprio remédio quando enfrentarem o potencial que essas mesmas redes sociais têm para empoderar aqueles que estarão então marginalizados por seu poder e os enfrente a partir de fora”. (tradução livre)

Mounk não está só. Há quase 50 anos, Hannah Arendt, que já frequentou os artigos desta série, refletia no ensaio “Verdade e Política”:

“O dizer a verdade dos fatos abrange muito mais que a informação diária suprida pelos jornalistas, posto que sem eles nunca poderíamos nos orientar em um mundo em contínua mudança e, no sentido mais literal possível, nunca saberíamos onde nos encontraríamos. É claro que isso é da mais imediata importância política”.

Disso ela concluía que:

“Se a imprensa tiver de se tornar algum dia realmente o ‘quarto poder’, ela precisará ser protegida do poder governamental e da pressão social com zelo ainda maior que o poder judiciário, pois a importantíssima função política de fornecer informações é exercida, em termos estritos, exteriormente ao domínio político…”

Mais uma vez, dixit Hannah.

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