
Formação de fôlego é a chave para implementar educação digital e midiática
Formação de fôlego é a chave para implementar educação digital e midiática https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/captura-de-tela-2026-05-06-110427-e1778093292389.png 650 435 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/captura-de-tela-2026-05-06-110427-e1778093292389.pngBruno Ferreira, coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta
Neste ano de 2026, em que as redes de ensino do país se organizam para atualizar seus currículos de modo a contemplar a educação digital e midiática — novo saber que concilia perspectivas relacionadas à educação tecnológica, para as mídias e para a informação —, uma iniciativa pioneira de formação de profissionais de educação se destaca pela profundidade que o tema merece.
Trata-se do curso de especialização em Educação Digital e Inovação Pedagógica na Educação Básica, que formou, no último mês de abril, sua primeira turma. Uma iniciativa do Ministério da Educação, em parceria com cinco universidades federais e coordenado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).
Cerca de 6.400 participantes, majoritariamente de redes municipais de educação, entre professores, gestores e lideranças educacionais, tornaram-se especialistas em educação digital e midiática. Eles agora têm a missão de articular a implementação desse novo saber curricular em seus territórios, atuando como referências para concretizar o que as diretrizes oficiais preveem para essa temática.
Ainda que o Brasil já conte com inúmeras iniciativas de formação, tanto de organizações da sociedade civil quanto de governos — sobretudo por meio da oferta de conteúdos na plataforma AVAMEC —, a complexidade da vida digital exige que avancemos para além das pílulas de conhecimento, das capacitações instrumentais focadas em ferramentas ou de uma infinidade de minicursos, sem vínculos ou sentido entre si.
Uma especialização de fôlego, como a oferecida pelo MEC, com carga horária robusta e percurso reflexivo, é o que permite que gestores educacionais atuem como efetivos articuladores do tema curricular em suas redes, favorecendo que docentes transitem da condição de meros replicadores de estratégias educacionais pensadas por especialistas e governos para a de autores de práticas pedagógicas críticas acerca das mídias e das tecnologias digitais.
O diferencial de cursos com essa natureza reside na capacidade de transformar gestores e professores em investigadores de suas próprias realidades. Com isso, esses atores da educação conseguem desenhar experiências de aprendizagem que dialoguem com os seus dilemas locais, articulando temas previstos nos currículos, como o enfrentamento à desinformação e uso ético da inteligência artificial, com demandas concretas de suas comunidades.
Para que a educação digital e midiática não se torne um “currículo fantasma” — presente no papel, mas ausente na prática —, precisamos de profissionais de educação que compreendam as implicações socioculturais da implementação desse novo saber nas escolas. Isso só se constrói com formação continuada que respeite o tempo de maturação do conhecimento. A experiência dessa primeira turma de especialistas demonstra que, quando há investimento em percursos profundos, o engajamento das redes de ensino deixa de ser uma adesão burocrática e passa a ser um projeto de transformação sistêmica.
A partir dessa experiência pioneira, espera-se que mais iniciativas de especialização e aprofundamento sejam fomentadas, com o envolvimento de governos estaduais e municipais, universidades públicas e privadas e também do terceiro setor. Somente com um quantitativo crítico de profissionais qualificados e seguros de seu papel será possível garantir que a implementação curricular seja, de fato, participativa e democrática.
A educação para o século XXI não se faz com manuais de instruções, mas com docentes e gestores educacionais com repertório para mediar a relação entre os estudantes e a complexa ecologia midiática contemporânea. A autoria docente, fortalecida pelo saber acadêmico e pela prática reflexiva, é o caminho para que o currículo se torne vida pulsante em cada sala de aula do país.