Intolerância: nem na arte nem na vida

Intolerância: nem na arte nem na vida 550 345 Instituto Palavra Aberta

* Francisco Viana

O Brasil abriu-se ao século XXI com uma grande certeza: a consolidação da democracia é o nosso maior legado para as próximas gerações.
Livro Brasil: uma biografia

Na novela Babilônia, em um dos seus capítulos recentes, houve uma cena imperdível: Consuelo (Arlete Salles), mãe do prefeito da imaginária cidade de Jatobá, vê, na festa de abertura do restaurante Estrela Carioca, que o namorado da sua neta tem duas mães, Teresa e Estela, que formam um casal de mulheres interpretado pelas divinas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, respectivamente. A cena que se segue é típica da intolerância que grassa no País nos dias atuais. Como se fosse a senhora absoluta da verdade, a avó, em questão, perde totalmente o controle, e, indiferente aos convidados, agride verbalmente Teresa, com ofensas a impropérios que resultam na sua expulsão da festa. Seu nome, evidentemente, vai parar nas redes sociais, com graves consequências.

É exatamente o drama que hoje envolve uma multidão de pessoas que vive de costas para a história e cultiva intolerância contra tudo e todos: intolerância política, racial, contra nordestinos, religiosa, contra homossexuais, enfim, intolerância, com relação às leis e à Constituição, que assegura a todos igualdade de direitos e deveres. É uma marca da realidade brasileira. De um lado, crescentemente combatida por não ser contemporânea, e de outro, por ferir as normas mais básicas de convivência em meio à uma sociedade republicana, diversa por formação e que vem exercitando igualitária gramática de cidadania.

Curiosamente, as reações sociais às múltiplas manifestações de intolerância não têm sido suficientes para coibi-las. Evidência de tal realidade podem ser constatadas nas ameaças de morte que atingiram, recentemente, o apresentador de televisão Jô Soares e o escritor Fernando Morais, ambos muito conhecidos, e as atitudes racistas contra a jornalista Maria Júlia Coutinho, a Maju, estrela em ascensão do Jornal Nacional com as previsões do tempo. São metáforas de desrespeito que atingem cotidianamente a sociedade brasileira e envolvem pessoas simples, mas que nem por isso deixam de reagir.

As redes sociais estão aí para demonstrar. Como na novela Babilônia, os atos de intolerância são prontamente repudiados. Não importa se ocorram no horizonte da homofobia ou do racismo, este um crime inafiançável, como no terreno pantanoso da intolerância política. Entre os muitos problemas da intolerância, além do ódio que semeia e se reproduz, está o surgimento de obstáculos tremendos à convivência civilizada, livre e saudável. Foi assim na Idade Média, mas não impediu a explosão de liberdade do Renascimento; tem sido assim no mundo contemporâneo, mas não evita que a democracia se afirme como valor universal.

A República, mais do que um sistema de governo, afirma-se na prática da liberdade e da igualdade entre os cidadãos, o que implica no direito à vida e no respeito aos valores e à individualidade de cada um. Nesse campo, a intolerância é dos grandes inimigos dos ideais republicanos. Claro, não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro. A intolerância, como um veneno, se infiltra em democracias avançadas como os Estados Unidos e países da Europa, como por exemplo, França, Inglaterra e Alemanha.

No caso brasileiro, o drama é que a intolerância nunca esteve ligada à identidade do País que, ao contrário do que se apresenta agora, sempre foi visto como um lugar de cordialidade e de caráter acima de preconceitos. É uma visão que a realidade teima em desmontar, certamente por ser uma simplificação que congelava interpretações mais profundas. A intolerância, porém, perde espaço dia após dia. Crescem as reações, cresce o repúdio. E o que é ainda mais importante: tudo isso ocorre em ambiente de liberdade.

Outro reflexo positivo é o debate que tende a se adensar em torno das raízes da intolerância e do próprio Brasil. Nesse sentido, há duas oportunas contribuições. Uma é o livro Brasil: uma Biografia, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, com ênfase ao fato de que não será “por decreto ou boa vontade” que características do passado, a exemplo do escravismo, voltarão teimosamente a se fazerem presentes no processo progressivo da democracia. Daí o significado educador da liberdade. O outro livro, também de significado pedagógico, chama-se Raízes da Intolerância. Organizado pelo psicanalista João Angelo Fantini, dialoga com experiências internacionais de intolerância.
Em todos os segmentos socais parece ficar claro que a grande utopia brasileira é exatamente construir uma sociedade igualitária, sem exclusão de qualquer natureza. Quando se olha o exemplo da novela Babilônia, com a denúncia dos males da intolerância, significa dizer que na arte como na vida não há lugar para discriminações.

* Francisco Viana é jornalista, consultor e mestre em Filosofia Política (PUC-SP)