Fernando Schüler: comunicação contemporânea em debate

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O filósofo e professor Fernando Schüler, coordenador da Cátedra Insper Palavra Aberta de Liberdade de Expressão, fala sobre o novo ciclo de debates e conferências em torno da comunicação contemporânea.

Com destaque para temas como a mídia tradicional na era digital, a sustentabilidade do negócio jornalístico e a pós-verdade, o ciclo de atividades da Cátedra Insper Palavra Aberta será iniciado no dia 27 de março com o ministro da Educação, Mendonça Filho.

Em entrevista ao site Palavra Aberta, Schüler assim definiu os desafios da comunicação contemporânea, além de analisar as tumultuadas relações do governo Donald Trump com os jornais americanos.

P: Quais os temas de interesse da Cátedra?
Estamos repletos de temas relacionados à comunicação contemporânea, como o papel do jornalismo no contexto da explosão das mídias digitais; a sustentabilidade das mídias tradicionais; nesse mesmo contexto, os fenômenos Google e Facebook; e a regulação da publicidade pelo Estado em oposição a autorregulação. Somam-se questões como o significado da comunicação pública, o empreendedorismo na mídia e temas ligados à liberdade de expressão e de imprensa. Além disso, nos chama atenção o choque entre o Brasil velho e o Brasil novo. O Brasil é um país de democracia consolidada, mas há problemas nas relações com os poderes constituídos, a exemplo da censura judicial à imprensa. O propósito da Cátedra é estimular a reflexão.

P: Como vê a questão da chamada pós-verdade?
O universo da pós-verdade veio para ficar. Sob esse rótulo se esconde muita coisa: a meia verdade, a notícia falsa, o ódio ideológico, a distorção da informação, a manipulação. O que preocupa é as pessoas acreditarem em meias verdades. Há muito lixo informacional, porque a Internet funciona como o que os economistas chamam de “tragédia dos comuns”. O custo das pessoas reproduzirem uma notícia falsa ou meia verdade é baixo e o benefício alto em sua rede de influência. É evidente que houve nisso tudo um avanço democrático. Arriscando um pouco, diria que ocorre uma espécie de “destruição criativa” nas democracias liberais. Velhas instituições e elites políticas perdem espaço de representação pública e em seu lugar as pessoas se expressam diretamente. Há um “cansaço da democracia”, na feliz expressão do filósofo Bernard-Henri Lévy. O mesmo ocorre com a mídia. É um caminho sem volta. Minha intuição é que as pessoas irão aprender a lidar com o fenômeno da pós-verdade. Seu destino é a irrelevância. O lixo irá ocupar um espaço tão grande que as pessoas vão aprender a descartar, separar o joio do trigo, reconstruir filtros de maior credibilidade. E aí encontramos um novo papel “curatorial” para a imprensa de qualidade.

P: E a guerra do presidente americano contra a imprensa? Onde pode chegar?
Há muita mitologia em torno de Trump. Se é verdade que seus apoiadores tenham recorrido a estratégias de fake news, também o é que boa parte da imprensa americana o hostiliza desde a campanha eleitoral. Mesmo jornais como o The New York Times aderiram um estilo muito próximo a pós-verdade em sua cobertura, com um claro viés editorial. Pode-se concordar ou não com Trump, mas o bom jornalismo exige algum distanciamento e insubmissão à lógica da ideologia. A reação de Trump, por sua vez, também não é razoável. Não faz sentido vetar esse ou aquele órgão de imprensa na cobertura da Casa Branca. Há uma queda de braço aí. E muito jogo de cena. No fundo, um dos grandes legados de Obama foi sua impecável atitude de tolerância e moderação política. Só por isso já garantiu seu lugar na história.

P: Como avalia a mídia brasileira?
O Brasil tem uma mídia forte e independente, ao menos nos grandes centros urbanos. É evidente que jornais e emissoras erram todos os dias, e isto faz parte do jogo. O que não faz sentido é a visão conspiratória sobre as “sete famílias” e outras lendas urbanas sobre o “monopólio da mídia” no País. Não há monopólio nenhum. Há liberdade, e mesmo por isso a mídia tradicional vem perdendo posições ano a ano. O desafio da mídia brasileira é semelhante ao que se passa em todas as grandes democracias. Em primeiro lugar, resistir à “moda Internet”. Resguardar seu papel de filtro, de qualidade, de análise ponderada. Já temos pós-verdade grosseira demais na Internet. Em segundo lugar, buscar novos modelos de sustentabilidade. Não se faz uma imprensa independente sem fontes de financiamento difusas, que permitam com que um veículo não dependa, rigorosamente, de nenhum anunciante ou patrocinador em particular. Este é o grande desafio, numa época em que a uma parte considerável da receita publicitária vai para as grandes redes digitais. Não há solução mágica. É preciso apostar em valores. Credibilidade, reputação, veracidade dos fatos. Quem praticá-los irá superar as adversidades e sobreviver.

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