A relação simbiótica entre jornalismo e educação midiática

A relação simbiótica entre jornalismo e educação midiática 1024 659 Instituto Palavra Aberta

Créditos da imagem: Rogério Lorenzoni/Studio3x

Patricia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta

O Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa deste ano, concedido ao Palavra Aberta, homenageia os 15 anos de trabalho do instituto em defesa de alguns dos direitos que sustentam a democracia brasileira. Mais do que isso, é também o reconhecimento de uma relação profunda, que deve ser cada vez mais valorizada em tempos de desinformação e descredibilização das instituições: a simbiose existente entre jornalismo profissional e educação midiática.

Desde 2019, o Palavra Aberta desenvolve o EducaMídia, o maior programa de educação midiática do Brasil e um dos maiores do mundo, dada a sua dimensão: em 6 anos, já atingiu mais de 11 milhões de pessoas em todo o território nacional. Preparar cidadãos e cidadãs para ler, escrever e participar do mundo conectado é uma tarefa que o instituto abraçou por entender que ela é basilar para a sustentabilidade da prática jornalística e, consequentemente, para as bandeiras que nasceu para defender.

Não faltam relatórios e estudos apontando a queda do interesse das gerações mais jovens pelo consumo de notícias, especialmente das mídias tradicionais. Alguns diagnósticos atrelados a esse quadro são igualmente preocupantes: de acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), da OCDE, 67% dos estudantes brasileiros de 15 anos não sabem diferenciar fatos de opiniões.

Por outro lado, crianças e jovens estão cada vez mais conectados, usufruindo das novas tecnologias com bastante frequência e ênfase. Um exemplo é o seguinte dado da edição mais recente da TIC Kids Online Brasil: 65% das crianças e dos adolescentes já usam IA generativa no seu cotidiano, para fins diversos como estudos e criação de conteúdo digital.

Quando ampliamos o diagnóstico para uma faixa mais ampla da população, a falta de entendimento sobre temas do cotidiano tornam o problema ainda mais complexo, como mostrou a pesquisa Brasil no Espelho, conduzida pelo cientista político Felipe Nunes, da Quest, e publicada em livro homônimo. O estudo ouviu 10 mil pessoas e identificou que a maior parte dos brasileiros superestima seus conhecimentos, acha que sabe muito mais do realmente sabe. Segundo ele, este descasamento tem um nome bastante conhecido na psicologia social: a “ilusão do conhecimento”, que pode afetar a todos nós e amplificar a disseminação de desinformação e a crença em mentiras e boatos.

Uma das formas de melhorar esse cenário é justamente com o investimento em educação e na promoção do jornalismo profissional, de acordo com o próprio autor. Para Felipe Nunes, “não há saída para reduzir índices de ilusão do conhecimento e minimizar seus efeitos deletérios na democracia e na vida social, senão investir em informação profissional e melhorar a escolaridade dos brasileiros”.

É, portanto, na educação básica que esse nexo entre informação confiável, jornalismo e educação midiática deve ser firmado e ofertado a crianças e adolescentes como parte integral da formação deles, para que adentrem o mundo adulto com autonomia, criticidade e responsabilidade, sabendo discernir narrativas, verificar mensagens e usufruir positivamente das ferramentas digitais.

Em tempos em que assistimos a campanhas de deslegitimação e tentativas sistemáticas de cerceamento do trabalho da imprensa, advindas inclusive do poder público, como no triste episódio ocorrido nesta semana na Câmara dos Deputados, quando jornalistas foram impedidos de fazer o seu trabalho, é imprescindível mostrar a sociedade que a atuação jornalística é fundamental para que possamos viver e participar, ativamente da nossa democracia.

E é neste sentido que o papel da educação midiática se torna ainda mais importante. Sem educação midiática, não existe audiência crítica; sem audiência crítica que valorize a integridade da informação, não há jornalismo. Sem jornalismo, não existe democracia e, sem democracia, não há liberdade de expressão. Cessam os direitos humanos e apaga-se a cidadania. Tudo faz parte de uma ciranda, de uma engrenagem em prol do desenvolvimento de uma sociedade mais justa e inclusiva.

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