
Quem nos informa na era da superabundância de informações?
Quem nos informa na era da superabundância de informações? https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/captura-de-tela-2025-11-06-124110-e1762444047467.png 650 428 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/captura-de-tela-2025-11-06-124110-e1762444047467.pngDaniela Machado é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta
Nem só de entretenimento, moda e lifestyle vive o mundo dos influenciadores digitais. Tem aumentado, em diversas partes do mundo, a popularidade de perfis dedicados a notícias — ou pelo menos àquilo que seus criadores imaginam ser notícia —, em um movimento que afeta diretamente os veículos jornalísticos “puro-sangue”.
Por um lado, a multiplicidade de vozes permite que diferentes pontos de vista participem do debate público. Por outro, é terreno fértil para a proliferação de fake news e outras formas de desinformação, além de teorias da conspiração e discursos cada vez mais polarizados. Assim, uma das consequências da reconfiguração do ecossistema informacional é a fragmentação da realidade, já que deixamos de ter acesso aos mesmos canais de transmissão de informações.
Relatório divulgado recentemente pelo Reuters Institute e a Universidade de Oxford mostra que personalidades e criadores de conteúdo em redes sociais “frequentemente eclipsam marcas tradicionais de notícias em termos de atenção”. O material cita, com base em dados da Pew Research, que cerca de um quinto dos adultos nos Estados Unidos e mais de um terço dos que têm menos de 30 anos de idade se informam por meio de influenciadores. Para a maioria, a maneira como esses perfis apresentam as informações facilita a compreensão dos eventos atuais.
“Há um conjunto de mercados, incluindo Brasil, México, Indonésia, Filipinas, Tailândia e Estados Unidos, em que criadores de conteúdo noticioso estão tendo um impacto muito significativo. Na maioria desses mercados, as pessoas relatam prestar mais atenção em influenciadores do que em marcas da chamada grande imprensa (ou seus jornalistas) quando acessam mídias sociais”, acrescenta o relatório.
No Brasil, de acordo com o mesmo relatório, 33% prestam atenção regularmente às informações de criadores de conteúdo e influenciadores em redes sociais e plataformas de vídeo, enquanto 30% dizem que sua atenção volta-se para marcas jornalísticas e jornalistas estabelecidos nesses mesmos ambientes. Políticos com grande número de seguidores e ativistas partidários também atraem o interesse dos usuários, com conteúdos controversos e polêmicos em muitos casos. Assim como nos EUA, o levantamento mostrou que a audiência em redes sociais mostra-se significativamente dividida de acordo com a posição ideológica de cada um.
Alguns sinais de atenção para o jornalismo profissional podem ser extraídos desse quadro. Num mundo em que o conteúdo é abundante mas nem sempre confiável, não basta lidar de forma zelosa com a informação — é preciso explicar ao público as muitas instâncias em que os dados apresentados por um veículo de comunicação estabelecido se diferenciam daqueles que simplesmente “brotam” em grupos de mensagens, muitas vezes sem autoria conhecida.
A imprensa precisa se envolver no letramento informacional da sociedade. E, nesse sentido, a UNESCO apresentou no mês passado um conjunto de materiais e ações de educação midiática que podem ser praticadas por jornalistas, (disponíveis neste link).
Está na hora de o jornalismo adotar uma postura mais firme de “conheça a nossa cozinha”.