Dica da Semana

Dica da Semana 630 345 Instituto Palavra Aberta

dvd-galileu-_-foto-reproducao* Por Francisco Viana

Galileu é um filme marcante e relata a vida de um dos maiores gênios da ciência, que desafiou a Inquisição e o senso comum, foi alvo de perseguições, mas nunca deixou de afirmar suas ideias e verdades.

Está tudo na narrativa, com textos e imagens imperdíveis. Foi com Galileu Galilei que começou uma nova ciência, uma nova ética do livre pensar. Nos distantes anos de 1606 a 1642, esse professor de matemática, físico, astrônomo e engenheiro do Arsenal de Veneza, revogou os céus e conseguiu demonstrar a teoria de Copérnico de que a Terra gira em torno do sol e não ao contrário, como se acreditava, a julgar à época pelas “verdades” repetidas desde antes de Cristo, nos idos de Aristóteles.

Sim, ele desafiou a Inquisição e o senso comum. Foi alvo de perseguições, obrigado a “retratar-se” pela Igreja da sua época, mas desfrutava de boa reputação e conseguiu afirmar suas ideias. Era rebelde, mas com bom senso, favorável à prática do diálogo. Na realidade, não desejava entrar em conflito com o clero. Apenas demonstrar que a fé, as Escrituras e o “livro da natureza” era uma coisa, a razão e a ciência outra. Não deviam, nem podiam, se misturar, e nem uma invadir o território da outra.

Com a descoberta do telescópio – que caiu das graças dos comerciantes de Veneza pois podia ver as naus inimigas duas horas antes de suas frotas se tornarem visíveis – pôde vasculhar os céus e descobrir que por trás do teocentrismo havia um universo novo para os astrônomos. Um universo infinito onde a terra era apenas mais um planeta. Não o centro do universo. Nascido poucos dias antes da morte de Michelangelo, a um ano do nascimento de Isaac Newton e muito antes do polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), foi um revolucionário no conceito de universo.

De nada adiantaram seus apelos. O clero da primeira metade do século XVII manteve-se surdo. A Inquisição decidiu que o heliocentrismo era uma doutrina “tola e absurda em filosofia e formalmente herética, enquanto contradiz expressamente as sentenças da Sagradas Escrituras”. A realidade provou o contrário. Galileu teve seus livros censurados e passou os últimos anos de sua vida em prisão domiciliar. Cego, com seus passos e pesquisas seguidas de perto pela Inquisição, que o perseguia como uma sombra, Galileu ganhou a liberdade com o reconhecimento póstuma da sua obra. Exemplo mais evidente: o papa João Paulo II pediu desculpas em nome da Igreja e o absolveu da Penitência imposta pelo Tribunal da Santa Inquisição.

Oficialmente, morreu de febre em 8 de janeiro de 1642, aos 77 anos. Sua vida foi uma prova prática que o autoritarismo só sobrevive pela força. Ele foi amado pela gente do seu tempo por escrever na linguagem que o homem comum entendia. Não era um sábio isolado numa torre de marfim, escondido sob o espesso manto do prazer. Era simples, questionador, aberto a ser questionado. Tinha argumentos.

O filme é da coleção Folha de São Paulo Grandes biografias no cinema. Fortemente influenciado pelo teórico do teatro e dramaturgo Bertold Brecht, que escreveu a peça A vida de Galileu, em 1947, é um libelo acusatório ao autoritarismo e o estilo do teatro épico, marcado pelo distanciamento dos atores com relação ao personagem, se afirma a cada cena. Humaniza os atores. Desperta maior interesse sobre o texto. Um coro interpretado por crianças situa as diferentes etapas da vida de Galileu e sua luta contra o destino, a exemplo das tragédias gregas. No papel de Galileu, o ator Chaim Topol (Um violinista no telhado). É um filme tipicamente europeu.

Além de ser um belo, carregado de tensão e leveza, de poesia e mensagens que traduzem razão e sentimento, traz à tela a humanidade de Galileu que teve medo da dor e esteve ameaçado sempre de tortura pela Inquisição, como ele mesmo afirma em diálogo com um dos seus discípulos, mas nunca abriu mão e recuou do seu espírito de cientista. Foi antes de tudo um ser humano, revolucionário e consciente, até na crítica ao seu comportamento: “Ninguém pode fazer o que eu fiz e ser tolerado pela ciência”.

Sim. São “imperfeições” como essas que humanizam o personagem. Não é um herói. É um homem. Ele manteve a luz da ciência acesa. E transformou o mundo.

* Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia (PUC-SP)