Dica da Semana

Dica da Semana 630 345 Instituto Palavra Aberta

Por Francisco Viana – Pioneiro ao analisar a era da informação e das sociedades a partir do advento da Internet, o sociológo espanhol Manuel Castells é um dos pensadores mais influentes deste século.

Quais os caminhos do poder político e das instituições na nova sociedade em rede que vem se tornando na espinha dorsal da vida no século XXI? Manuel Castells, sociólogo da comunicação, que foi militante antifranquista e acredita nesse poder transformador, entende que há uma saudável transição entre a estrutura tradicional do poder, que se alimenta do controle da comunicação e da informação, para uma cultural de liberdade, característica da universo da Internet, que está para a era digital como a indústria esteve para a era industrial.

Não é uma transição em linha reta. O poder – Castells descobriu nos anos de militância clandestina contra a ditadura de Franco – está baseado no controle da comunicação e da informação, seja ele o poder macro do Estado e das corporações da mídia, seja o poder micro de todos os tipos de organização. Assim, o poder é mais do que comunicação e a comunicaçnao é mais do que o poder. Mas o poder depende do controle da comunicação, assim como o contrapoder depende do rompimento desse controle. Não é um rompimento fácil, mas um avanço diário. Tudo isso, ele coloca com clareza no livro O poder da comunicação e se traduz na forma mais fundamental de poder, a sua hipotése de trabalho: a capacidade de influenciar a mente humana.

Castells, 74 anos, foi professor nas universidades de Paris e da Califórnia, em Berkley, e pesquisador na Universidade Aberta da Catalunha, é autor de inúmeros livros fundamentais. Entre eles, destacam-se a trilogia A sociedade em rede, A galáxia da internet e Redes de indignação e esperança, sempre enfatizando os impactos das redes sociais e o caráter da coerção, seja ela legítima ou não, como “fonte essencial de poder”. Embora a coerção “por si só não consegue consolidar a dominação”, a comunicação se expressa na capacidade de “construir o consentimento ou, pelo menos, instilar o medo e a resignação em relação a ordem existente”. Em todo o caso, o essencial é fazer cumprir as regras que governam as instituições e as organizações da sociedade. Ou mediar, a mudança para propor a construção de uma estrutura de poder fundamentada na sociedade em rede.

Contudo, a Internet não é uma panacéia. Não foi o antídoto real contra o sistema de comunicação tendencioso, como cita Castells – as campanhas política condicionadas pelo poder do dinheiro, políticos midiáticos ou pela estratégia dos escandâlos – porque também incorpora a manipulação e mensagens ilusórias, como no passado foi a televisão. É construida por seres humanos e traz para a realidade suas ambiguidades, vícios e grandezas. Precisa de liberdade para que as grandezes expulsem (ou superem) as ambiduidades e vícios.

Mas a Internet e as redes de comunicação, com a cultura da liberdade, desde a campanha presidencial de Obama em 2008, representa, no mínimo, uma comunicação híbrida, em que os dois modelos se misturam: parte, o modelo tradicional de controle e semeadua de promessas ilusórias, em parte, pelo despertar da sociedade pela necessitada de uma comunicação nova, não alienada, que privilegia não o espetáculo, mas a informação.

Dai, a emergência do contrapoder na era digital, com amplitude e rapidez maiores que nas eras dominadas pelos jornais, pelo rádio e pela televisão, porque a tecnologia maximixou “as chances e mobilização de projetos alternativos que emergiram na sociedade para desafiar as autoridades”. E também a comunicação em escala global.

Exemplo dessa realidade tem sido a transformação mais importante dos últimos anos: a transição da comuniçação de massa para a intercomunicação individual, tornada possível graças a Internet e as redes de comunicação móvel. Soma-se o fato da Internet questionar a todo instante o antigo modelo baseado no controle da comunicação e da informação, o que faz , por exemplo, a ascenção dos movimentos contra situações sociais um fato evidende.

Eles são simultaneamente globais e locais, como ocorreu com a chamada Primavera Árabe, estão conectados globalmente, aprendendo com as experiências uns dos outros, se envolvem em debates globais constantes e expressam “consciência aguda” sobre problemas interligados e humanitários, modelando claramente uma cultura cosmopolita ao mesmo tempo em que se mantêm enraizados em sua identidade específica. Prefiguram, em alguma medida, a superação da divisão atual entre identidade comunitária local e rede individual global.

O Poder da comunicação (Editora Paz & Terra) é rechado de exemplos concretos do poder da comunicação e da criação do contrapoder. Além disso, há especial relevância nas observações sobre a necessidade de combinar esperança com mudança. Diz ele: “A mudança é necessária, mas a esperança é a emoção impulsora. É a emoção, que segundo as pesquisas de cognição política, estimula o entusiasmo por um candidato. É somente com a condição de ser esperançosa que a mudança torna-se ‘mudança em que podemos acreditar’, porque o mensageiro confere credibilidade à mensagem, não necessariamente em virtude de suas credenciais, mas pela capacidade que ele tem de inspirar esperança e confiança”.

É uma reflexão de valor universal. Vale tanto para clarear os horizontes da entorpecida economia brasileira e das nossas eleições municipais, como as eleições americanas. Quebra o paradigma de que importam apenas as imagens, tão venerada pelos marqueteiros, e introduz em cena o valor das palavras. Palavras importam sim, pois podem portar “esperança e não o medo”, como lembra Castells. Porque o importante é influenciar positivamente a mente humana. É isso que faz a qualidade da comunicação, é o que altera, para melhor, o exercício do poder. Que está na raiz do sentido da comunicação. Ler Castells é fascinante.

* Francisco Viana é doutor em Filosofia (PUC-SP)