Felca e o poder da influência digital

Felca e o poder da influência digital 1024 576 Instituto Palavra Aberta

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

Quem não conhecia Felipe Bressanim Pereira, o Felca, até duas semanas atrás, pode pensar que o conteúdo que ele produz nas redes sociais é essencialmente voltado para denúncias e investigações, como é o caso do seu vídeo viral sobre adultização e sexualização de crianças e adolescentes. Somente no YouTube, o vídeo já atingiu mais de 47 milhões de visualizações.

Não é bem assim. Aqueles que seguem o influenciador estão acostumados a consumir sátiras de temas diversos, com bastante sarcasmo e até autodepreciação. Um dos seus vídeos mais famosos é de dois anos atrás, quando ele testou a base da linha de maquiagens da influenciadora Virgínia, resultando em cenas cômicas sobre a sua falta de habilidade com o produto.

Mas, ciente de seus milhões de seguidores e, mais importante do que isso, do seu potencial de engajar essas milhões de pessoas, Felca vem fazendo alertas importantes em vídeos claros e informativos. Além da discussão sobre exposição e exploração infantil nas plataformas digitais, que pautou o debate público e ganhou o apelido de “efeito Felca” pela imprensa, em maio deste ano ele já havia se posicionado sobre a CPI das Bets e a irresponsabilidade de influenciadores digitais em promoverem jogos de aposta.

O mercado de influência digital é um negócio global bilionário. De acordo com dados do site Statista, foi avaliado em US$24 bilhões no ano passado, com projeções de atingir US$32,55 bilhões neste ano. São inúmeros os relatórios que apontam para a eficiência desse tipo de marketing, mostrando como consumidores tendem a confiar em influenciadores como se fossem pessoas próximas — afinal, muitos deles compartilham sua vida diariamente nos mínimos detalhes, inserindo a audiência continuamente em suas rotinas.

Para além de promover produtos e marcas, influenciadores digitais também podem promover ideias e discursos — desde que seguindo as regras do Guia do Influenciador Digital do Conar —, especialmente entre os mais jovens. Segundo um relatório da Morning Consult, entre 2019 e 2023 houve crescimento de 51% para 61% na taxa de pessoas das gerações Z e Y que afirmam confiar nessas “personas digitais”.

Em um contexto em que a audiência se volta cada vez mais para produtores alternativos de conteúdo, com altos índices de desconfiança em relação ao jornalismo tradicional, é de suma importância que os influenciadores tenham consciência do papel que desempenham, independentemente do nicho em que atuam. De games a humor, de beleza e estética a maternidade, de lifestyle a esportes, entre tantos outros temas, do outro lado da tela existe uma infinidade de pessoas vendo e confiando no que eles dizem (e promovem).

O caso de Felca é emblemático justamente por isso: ele passou um ano reunindo as informações e dados que estão no vídeo que “furou a bolha” e fez o Congresso Nacional retomar uma discussão tão importante, colocando um tema delicado e urgente no topo das conversas online e offline.

Em entrevista para o programa Altas Horas, da Rede Globo, no último dia 16, uma participante questionou o influenciador sobre o porquê de um assunto já conhecido ter tomado essa proporção, uma vez que o material que ele denunciou era de conhecimento público há anos. A resposta de Felca demonstra a consciência cidadã que deveria fazer parte de todos que criam conteúdo nas redes sociais: “Foi uma questão de alcance. O alcance vem quando uma pessoa decide reunir informações e faz um vídeo fácil de consumir.” E completou: “Não é sobre mim. É sobre a causa.”

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