
O papel nem sempre visível das mídias na violência de gênero
O papel nem sempre visível das mídias na violência de gênero https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/slide-16-9-16-1024x767.png 1024 767 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/slide-16-9-16-1024x767.pngDaniela Machado é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta
A violência contra mulheres não dá trégua. Dados recordes de feminicídio, queixas de agressão física ou relatos de violência psicológica têm sido frequentes no noticiário, desencadeando discussões sobre como punir criminosos, evitar novas vítimas e conscientizar a sociedade.
Nesse debate, é comum que a internet e as redes sociais sejam citadas como um caldeirão em que o ódio fervilha. Um exemplo é o movimento “red pill”, encabeçado por influenciadores que pregam o despertar dos homens para uma suposta realidade em que teriam perdido poder para as mulheres. Atitudes machistas e discursos agressivos contra meninas e mulheres não são exclusividade dos ambientes online, mas é inegável que esses espaços ampliam seu alcance.
Mas, além do que é compartilhado propositadamente em canais de conteúdo misógino, é importante olhar como as mensagens midiáticas em geral carregam visões de mundo que acabam por reforçar estereótipos e papéis sociais que vulnerabilizam mulheres e meninas. É por isso que os esforços para enfrentar a violência de gênero demandam também iniciativas de letramento para consumir e produzir informações de maneira mais crítica e consciente.
Na educação básica, desde cedo, é possível convidar as crianças a refletir sobre conteúdos que associam meninas a brincadeiras de boneca e “de casinha”, enquanto meninos são geralmente representados em situações de aventura e mais liberdade. À medida que crescem, os estudantes podem estender a análise para os espaços virtuais em que circulam, como plataformas de jogos e as próprias redes sociais.
Além dos problemas advindos da exposição a alguns tipos de mensagens, outro componente importante das questões de gênero está no funcionamento dos ambientes digitais, em que impera a ação dos algoritmos que buscam maximizar o engajamento. Esse mecanismo faz com que meninos recebam mais conteúdos de masculinidade agressiva ou de exaltação à virilidade, enquanto meninas são o público preferencial de mensagens sobre padrões de beleza, por exemplo.
A popularização de ferramentas de inteligência artificial adiciona uma camada ainda mais complexa a esses problemas, ao facilitar a criação de conteúdos falsos, como os chamados “deep nudes”, em que adolescentes são virtualmente despidas e expostas em situações que visam humilhar ou difamar. Tais situações precisam ser discutidas no ambiente escolar, respeitando a idade e o grau de maturidade dos estudantes. Educadores, além de familiares e responsáveis, devem estar preparados para falar sobre fenômenos como a “violência de gênero facilitada pela tecnologia”, um termo definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e conhecido pela sigla TFGBV (do inglês “Tecnology-facilitated gender-based violence”).
Para apoiar a sociedade nesse processo, o EducaMídia — programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta — lança esta semana o e-book gratuito “5 contribuições da educação midiática ao letramento de gênero”, com conceitos e sugestões de atividades para a sala de aula, que também funcionam como temas para conversa em família.
A educação midiática estimula os estudantes (e a sociedade em geral) a ler criticamente as informações disponíveis e a compreender as dinâmicas que regem as plataformas, identificando estereótipos, vieses e outras violações de direitos. Também oportuniza a produção responsável e ética de conteúdos, de modo a promover autoestima, aceitação, respeito e equidade de gênero.