Para além das fake news

Francisco Viana*

Fake news é um boato criado para que se tenha uma impressão falsa da realidade. Pode ter o objetivo de ganhar dinheiro ou ferir a reputação de alguém, geralmente uma celebridade, um político, um candidato a cargo eletivo, independente do gênero ou de partidos. Agora, os males causados pelas fake news podem ser ampliados com ajuda da Inteligência Artificial, recurso tecnológico bem mais versátil e poderoso. Podem, por exemplo, manipular a informação criando vídeos falsos, mas com a voz real das pessoas.

O alerta parte de Aviv Ovadya, pesquisador e tecnólogo do Tow Center para Jornalismo Digital da Universidade de Columbia, autor de conceito de “infocalipse” . Isto é uma versão informatizada do apocalipse bíblico, quer dizer, uma sociedade inundada de informações falsas em que as pessoas só acreditam no que querem, virando as costas para os fatos. E, portanto, para a democracia.

Segundo o pesquisador, ao lado da liberdade de expressão e de imprensa, a confiança na verdade da informação é o elo forte da democracia em uma sociedade contemporânea. Porque é o que constrói a confiança e, se não há confiança, grassa a apatia e não se tem interesse em saber o que é real e o que é inventado. Ele recomenda em entrevista ao jornal El País, verificar se um vídeo realmente veio de “ tempo e lugar específico” , mas que é preciso ser cauteloso na regulamentação das redes sociais porque é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre a legislação e a desinformação. “Se você faz muito a democracia morre, e, se você faz pouco, a democracia morre… É muito complicado acertar”. ”Mesmo que a população se volte para meios tradicionais como rádio e TV, nada impede que estes também “ estejam sob o controle dos atores da desinformação”.

Além disso, assinala o pesquisador -norte americano”, se o conteúdo das plataformas online for mais envolvente, mais surpreendente e mais emocional, as pessoas se voltarão para elas.” Há ainda o risco de muitas mídias online dizerem que as mídias tradicionais não inspiram confiança.

Em síntese, para que a democracia se mantenha viva não se pode acreditar apenas no que se quer que seja realidade. O cidadão, portanto, precisa participar, sendo cuidadoso ao repassar informações. Sobretudo em épocas de eleição.

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP).

 

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