O detergente e a corrosão do senso crítico

O detergente e a corrosão do senso crítico 1024 682 Instituto Palavra Aberta

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

Desde a última quinta-feira, dia 7, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) comunicou a suspensão da fabricação e recolhimento de produtos de uma determinada marca de detergente por risco sanitário, foi praticamente impossível desviar de notícias, posts e memes sobre o assunto.

Dados da AtivaWeb Datalab mostram que foram feitas mais de 17 milhões de menções públicas ao caso no TikTok, Instagram, X, Facebook e YouTube. De imagens de gente fingindo beber o líquido a vídeos enfáticos sobre manter a utilização do produto, contrariando as recomendações do órgão regulador, as timelines foram inundadas de conteúdos de teor político-partidário, transformando a operação em mais um capítulo raso do Fla-Flu ideológico que costuma tomar conta de toda discussão importante no País.

A mesma análise aponta que quase 60% das postagens eram críticas ao órgão regulador, a partir de uma versão sem qualquer evidência de que a operação se tratava de uma suposta represália do governo à empresa. Assim, o ambiente digital foi transformado em uma “guerra emocional e memética” porque, em 2022, pessoas ligadas à companhia teriam realizado campanha para a chapa derrotada à Presidência.

Não é a primeira vez que vemos uma histeria generalizada contra uma determinada marca pelos mesmos motivos. No fim de 2025, um comercial de chinelos com a atriz Fernanda Torres provocou fenômeno parecido: ao dizer que preferia entrar no ano novo com os dois pés, e não com o pé direito, a publicidade provocou a ira de quem viu na mensagem uma crítica ao conservadorismo brasileiro.

O problema é que, diferentemente do caso dos chinelos, brecar o uso e recolher detergente contaminado é uma questão de saúde pública. Como o próprio ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou em vídeo recente: “Uma bactéria em um detergente não é uma questão de esquerda ou direita. Não importa em quem você votou ou pretende votar”.

Da mesma forma como vimos na pandemia de COVID-19 e no movimento antivacina, a desinformação motivada por negacionismo científico é um risco à saúde individual e coletiva, pois o debate técnico e científico é abandonado e substituído por achismo e devaneios enviesados.

A corrosão do senso crítico em situações como essa é também a corrosão da confiabilidade e da legitimidade dos servidores públicos e das instituições que integram o sistema democrático. A desconfiança em relação ao trabalho da Anvisa é a mesma em relação ao SUS, ao TSE, ao IBAMA, ao IBGE e a outros órgãos sistematicamente atacados nos últimos anos por ondas de mentiras monetizadas e impulsionadas por algoritmos.

Não se trata de impedir críticas a essas e outras instituições, mas de fazê-las baseadas em fatos e evidências. Nesse sentido, a consciência de como nossas próprias crenças e valores funcionam como uma lente diante das notícias nos ajuda a ter dimensão da nossa vulnerabilidade à certos tipos de mensagens e, consequentemente, à nossa interpretação da realidade.

Todavia, a questão é como educar digital e midiaticamente quem não quer ser educado. Ou seja: aqueles que preferem dar mais peso às suas próprias opiniões, mesmo quando estas não são factíveis ou têm embasamento algum.

A criação e implementação de ações, programas e campanhas é urgente, mas encontra obstáculos religiosos, ideológicos e de outros nichos. Ademais, letramento científico é outra demanda que carece de um olhar institucional mais focado.

No mesmo mês em que foi sancionada a Lei nº 15.406/2026, marcando o dia 12 de março como data oficial em memória às mais de 716 mil mortes por COVID-19 no Brasil, muitas delas também vítimas da desinformação, é no mínimo lamentável que ainda nos deparemos com a priorização de narrativas perigosas em detrimento do senso crítico para a saúde pública. 

 

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