Dica da Semana

Por Francisco Viana – Os melhores artigos de Paulo Francis, publicados na Folha de S.Paulo, entre 1975 e 1990, estão reunidos no livro organizado por Nelson de Sá, cronista do mesmo jornal. Polemista irrefreável, Francis foi um dos primeiros críticos da mídia no Brasil.

paulo-francisEle não se destacou apenas como polemista irrefreável, foi um dos primeiros críticos de mídia do País, ainda na antiga Última Hora de Samuel Wainer, e nos anos 1970 na Tribuna da Imprensa. Isto foi dito por Alberto Dinis ao estrear coluna sobre a imprensa na Folha de S.Paulo em 1975.

Suas posições ficam claras nas crônicas reunidas no livro, especialmente em mais de duas dezenas que tratam especificamente do tema imprensa. Sim, esse tema o fascinava, a despeito de dizer no artigo “Como se faz uma notícia”, sem rodeios: “jornalistas tarimbados sabem que 95% a 98% do que se passa por notícia são non-events, não acontecimentos, devidamente dourados por profissionais para o público consumidor”. Como Francis chegou a essa conclusão? Talvez por intuição, não por razão, mas é certo que a partir de uma constatação: “Há uma inflação de mídia no mundo”. E ele sempre deu atenção àquilo que chamava de as “entranhas do animal”, a mídia. Era um jornalista interessado pelos bastidores, pelo lado oculto das coisas. Primava por ver no jornalismo um espetáculo, evidenciado sempre que podia a sua porção de show business e dizia o mal da imprensa é ela “não ousa mais desagradar o leitor”.

Exemplos do pensamento de Francis. Ao escrever Algumas lições aos estudantes de comunicação profetiza a supremacia de mídia eletrônica sobre a mídia impressa, já prevista na década de 1920 por Henry Luce, criador da Time (porque “o leitor moderno não quer ou não tem tempo para literatices. Quer coisas rápidas e interpretativas”), mas que permanecem “ignoradas pela maioria da imprensa escrita em todo o mundo”.

Em A segunda mais antiga profissão do mundo, admite que “a imprensa americana, à parte a dos países comunistas, é a mais desonesta do mundo”, levada por “interesses tangíveis econômicos e políticos”. E em O poder da imprensa admite que “o charme discreto do métier” é que o jornalismo da “amplo acesso à natureza humana” e, em outro artigo, Os jornalistas e a liberdade sob pressão é conclusivo: não há substituto para a liberdade burguesa que permite que “a nós, jornalistas, digamos sempre o que queremos dizer”.

A leitura de Paulo Francis é a leitura da sua filosofia política, um jornalismo de autor, com forte visão pessoal dos acontecimentos: a veemente defesa do debate aberto, da polêmica que só “floresce na liberdade”, e, sobretudo do jornalismo crítico, que desde o caso do capitão francês Alfred Dreyfus (1894-1906) acusado de espionar para Alemanha e condenado a prisão na ilha do Diabo (Guiana Francesa), tem sido decisiva para a história.

O rumo da história mudou quando Émile Zola publicou na primeira página do jornal L’Aurore um panfleto intitulado “Eu acuso”, carta aberta ao presidente francês, que ganhou o apoio dos intelectuais e das massas, favorecendo à libertação de Dreyfus e a ascensão da sociedade civil francesa sobre o exército, que mandava e desmandava desde o final da Revolução Francesa.

Francis trabalhou 15 anos na Folha de S.Paulo, foi comentarista internacional da TV Globo, antecipou duas décadas a Operação Lava Jato ao fazer denúncias, se bem que sem provas, contra a Petrobras, e cultivava as fontes que pudessem dar informações de bastidores. Entendia e tinha razão, que o jornalismo é uma “carreira difícil em que poucos sobrevivem e prosperam”. Considerava a leitura diária dos jornais uma “maravilha” e cultivava o hábito de lê-los todas as manhãs (The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post, além dos jornais ingleses, brasileiros e as notícias na TV, quando trabalhava em Nova York.

Ler suas crônica e desbravar o seu método de trabalho é também acompanhar a crônica de um Brasil que existiu na pena e na irônica lucidez, na irreverência de Antônio Maria, Millôr Fernandes, Ziraldo e Sérgio Porto (que usava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, sob a rubrica “O Festival de Besteiras que Assola o País”) e que teima em se recriar sem a visão crítica e inteligente do passado. A coletânea traz um inigualável sabor de realidade quando Francis reconhece: “É possível ser jornalista e honrado. Conheço colegas que são. E todo mundo sabe quem não é, ainda que não se diga em público…”

Paulo Francis morreu em 17 de fevereiro de 1977. Viveu quase 67 anos. Foi um dos fundadores do lendário Pasquim. Foi o emblema de um Brasil que se propunha a ser iluminista e humanitário, mas que se revelou antropofágico. O próprio Paulo Francis, pseudônimo de Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, acabou sendo vitima dele, com seu espírito inquieto e independente. Mas Francis viveu uma vida singular. Não apenas existiu, nem sobreviveu.

Certa vez ele escreveu que nunca pensou em ser jornalista e se sentia “sortudo” por ter viajado aos lugares “mais importantes do mundo, por ter conhecido um bocado de gente de todas as profissões e classes sociais sem vê-las pelo prisma estreito do jornalismo. Existe algo chamado experiência social, que não se adquire em redações, especialmente na sociedade atomizada de hoje”. Ele quis dizer, em outras palavras, que o jornalismo facilita, mas é repetitivo, e para se acumular experiência e preciso viver. E a busca dessa raridade, segundo ele, é o fato novo.

* Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP)

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