Mensageiros e mensagens

A liberdade de imprensa é uma conquista diária. E não permite tréguas nem romantismo.  O cenário que se delineia no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, instituído pela Unesco na década de 90 do século passado, a ser comemorado no dia 3, não deixa margem à dúvidas. Por toda parte, inclusive nos países democráticos, grassam as hostilidades, perseguições e até mortes de jornalistas. Se há um atavismo a superar, este é a confusão entre a mensagem é o mensageiro. Aí é que começam os equívocos.

Essa confusão não data de hoje. Em História da Imprensa Brasileira, Nelson Werneck Sodré nos informa que esse atavismo data das lutas pela independência e acompanhou como uma sombra a proclamação da República. Empastelava-se oficinas, agredia-se jornalistas e até se queimava jornais. A censura à imprensa acabou com a Constituição de 1988, mas a cultura do autoritarismo persiste. E atinge todas as mídias, com maior ou menor intensidade, apesar das mídias terem mudado, abandonarem o partidarismo explícito, como nos anos 50 e 60 e os jornalistas terem maior influência nas redações.

O que fazer?

O melhor antídoto para o autoritarismo contra a imprensa é a própria imprensa. Não basta denunciar. É preciso trabalhar a ideia de que a liberdade de imprensa não existe e, sim, a liberdade da sociedade. Essa sim é a mãe de todas as demais liberdade: a liberdade de reunião, a liberdade de expressão, a liberdade de organização partidária, a liberdade de iniciativa, a liberdade de construir uma democracia. E, assim, sucessivamente.

Com as mídia sociais, o compromisso com a liberdade aumentou. Por exemplo, é preciso dizer, de alto e bom tom, que fake news não é notícia. É mentira travestida com os trajes de gala da verdade. Notícia é fato. E foi o que motivou o pensador Alex de Toqueville a escrever Democracia na América ao visitar os Estados Unidos no alvorecer da sua construção e notar que por trás da maré de progresso predominava o conceito de liberdade.

Entre nós no Brasil, foi o inverso. Por trás dos atavismos, sempre esteve o ossificado conceito de não liberdade. É uma realidade que precisa mudar radicalmente. A imprensa não produz os fatos. Ela só os notícia, comenta, forma e informa a opinião pública. A imprensa é fruto da concepção liberal de que as boas notícia expulsam as más e, assim, contribuem para evolução da sociedade.

Esse é o tipo de reflexão que sugere o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

 

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política( PUC-SP).

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