
Apatia para checar informações desafia a democracia
Apatia para checar informações desafia a democracia https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/authentic-small-youthful-marketing-agency-1024x763.jpg 1024 763 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/authentic-small-youthful-marketing-agency-1024x763.jpgMariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta
O provérbio popular “contra fatos não há argumentos” parece perder cada vez mais sentido no contexto informacional em que vivemos. Não se trata apenas de empiria: não faltam dados que revelem o progressivo desinteresse da população adulta em verificar e interpretar informações, dando preferência a conteúdos que confirmam suas crenças.
Tal movimento, denominado “desengajamento informacional”, aparece na pesquisa Painel TIC – Integridade da Informação, divulgado neste mês de abril pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Entre os usuários brasileiros de internet de 16 anos ou mais, 34% concordam que “não vale a pena pesquisar se as informações são verdadeiras ou falsas” e 33% acreditam que “não adianta checá-las porque isso não vai mudar a opinião das pessoas”.
Os dados também mostram que 27% pensam que saber se as informações que consomem são reais não têm impacto em suas vidas, o que denota um quadro de desvalorização da importância que os fatos têm no dia a dia de qualquer cidadão, bem como de apatia diante da tarefa de avaliar informações em um cenário de opiniões extremadas e seletivas.
A desconfiança no trabalho da imprensa profissional, relatada em diversas pesquisas nos últimos anos, também consta no estudo do Cetic.br: cerca de metade (48%) das pessoas diz “desconfiar sempre ou na maioria das vezes de informações produzidas por veículos de notícias tradicionais”. É válido notar que existem discrepâncias entre faixas etárias e níveis de escolaridade, o que complexifica ainda mais um quadro bastante desafiador em termos de ações e políticas públicas possíveis.
Isso porque, se considerarmos que as taxas observam majoritariamente a população adulta, que já deixou o sistema escolar, atingir esse público com campanhas de comunicação e projetos de educação digital e midiática se torna uma tarefa bastante laboriosa. No entanto, é fundamental que se invista nesse tipo de iniciativa.
Como o próprio Cetic.br aponta, o ânimo em verificar conteúdos e mensagens está diretamente relacionado ao desenvolvimento de habilidades, como adquirir noções básicas de letramento algorítmico, por exemplo. Ou seja: engajar cidadãos e cidadãs nesse processo não é apenas importante, mas essencial para fomentar alguns preceitos democráticos que parecem em desuso, como a capacidade de diálogo, o respeito à diversidade, a convivência com o plural e a participação ativa.
As consequências desse contexto de desengajamento informacional são, portanto, diversas e nocivas. A confiança nas instituições democráticas é a mais grave delas. Se verificar informações não é importante, discursos de ódio e ataques aos três poderes e ao processo eleitoral passam a ser autorizados por quem pensa que suas crenças e vieses individuais se sobrepõem ao coletivo.
Em tempos de ferramentas de inteligência artificial generativa enraizadas nas práticas cotidianas, perceber que pelo menos um terço dos brasileiros e brasileiras apresenta relutância em examinar informações criticamente é muito preocupante. Refletir sobre que caminhos estamos seguindo quando os fatos simplesmente não importam precisa ser uma pauta central, urgente e coletiva.