IA, chatbots e notícias: o que essa mistura provoca no jornalismo?

IA, chatbots e notícias: o que essa mistura provoca no jornalismo? 1024 683 Instituto Palavra Aberta

Daniela Machado é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

A inteligência artificial começa a influenciar a maneira como nos relacionamos com o jornalismo, embora o movimento ainda seja tímido. O uso semanal de chatbots de IA para acessar notícias subiu de 7% para 10% globalmente no último ano, de acordo com dados de um importante relatório produzido pela Reuters em conjunto com a Universidade de Oxford.

“Embora ainda represente uma fatia relativamente pequena da população, o número indica um aumento relativo substancial e sugere que a IA está começando a desempenhar papel mais significativo no consumo de notícias, ao lado dos métodos já estabelecidos”, destacou o estudo Digital News Report 2026. No geral, a IA é citada como principal meio para obter notícias por apenas 1% dos entrevistados.

Ainda assim, alguns comportamentos que advêm do uso de chatbots merecem atenção por nos dar pistas sobre o que essa tecnologia representa para a indústria jornalística, já afetada por índices decrescentes de confiança.

O novo comportamento, por enquanto, é liderado por uma parcela específica da população: os jovens e os identificados no estudo como “news lovers” (aqueles que manifestam mais interesse e apreço por acompanhar notícias). Enquanto apenas 5% das pessoas com mais de 55 anos usam chatbots para se informar, o índice sobe para 17% na faixa entre 18 e 24 anos. Curiosamente, o uso é maior entre aqueles que já consomem notícias de forma intensiva — cerca de 18% dos que acessam informação mais de dez vezes ao dia utilizam IA como complemento.

A principal motivação citada por aqueles que utilizam chatbots para acessar notícias é a possibilidade de fazer uma pergunta complementar sobre o tema (42% das respostas globalmente e 44% no Brasil). Na sequência, aparecem as seguintes razões: pedir à ferramenta de IA as últimas informações, solicitar um resumo, pedir que encontre ou avalie uma fonte de informações, “traduzir” o noticiário para uma linguagem mais fácil de compreender e entender como os próprios veículos jornalísticos trabalham.

Para a imprensa, o uso de chatbots pela população gera o risco de esvaziar ainda mais os cliques nas fontes originais das informações. Mas também oferece algumas pistas interessantes do que os consumidores buscam, como notícias mais contextualizadas ou melhor explicadas.

Num cenário em que o jornalismo já vê sua relação com o público enfraquecida, o relatório sugere que o foco esteja no seu diferencial, incluindo o papel de fonte confiável em meio a um ambiente informacional caótico e de produtor de reportagens aprofundadas que vão além do que a IA pode simplesmente repetir. 

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