Foto por Disney/Pixar

A vida digital das crianças

A vida digital das crianças 1024 580 Instituto Palavra Aberta

Mariana Ochs é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

Foto por Disney/Pixar – (contém spoilers) 

Bonnie tem sete anos e uma imaginação fértil capaz de construir mundos com seus brinquedos – até que ganha um tablet. Esse é o ponto de partida do novo filme da Pixar, Toy Story 5. Atualizando a franquia que nos emociona desde 1995 ao explorar a mágica e a finitude da infância, a Pixar traz agora uma reflexão sobre o lugar da tecnologia na vida das crianças. O cartaz e as notícias iniciais sobre o filme faziam supor uma narrativa tão previsível quanto simplista: um embate entre brinquedos tradicionais, representando o lado afetivo e humano, e as telas frias e alienantes, os vilões da história. Mas talvez essa seja justamente a leitura que o filme procura evitar.

Em Toy Story 5 a tecnologia aparece como parte constitutiva do mundo atual: o GPS no carro dos pais, a câmera digital, a videochamada, o home office — tudo é parte da vida cotidiana, como acontece na vida de quem está assistindo. O problema central do filme não é a presença de tecnologia, e sim o que fazemos uns com os outros, adultos e crianças, dentro e fora dela.

O debate público sobre crianças e telas tem, por vezes, se organizado em torno de algumas premissas falsas: a primeira é a de que a tecnologia é, por natureza, adversária do desenvolvimento infantil, e que proteger crianças significa necessariamente afastá-las de todo o tipo de interações com ambientes digitais (o que nos priva também de ensinar sobre eles). A segunda, de que “tempo de tela” é uma métrica adequada para regular o uso de tecnologia por crianças, quando na verdade isso oculta a grande variedade de atividades, seguras ou perigosas, criativas ou alienantes, construtivas ou dispersivas, que podem acontecer nos ambientes digitais. 

O filme traz uma discussão com mais nuances sobre o nosso relacionamento com a tecnologia. O que Bonnie busca com seu tablet é pertencimento; o que as amigas reproduzem no ambiente digital é uma lógica de exclusão que já conhecemos do pátio da escola, e também de outros filmes – mesmo aqueles muito anteriores aos tablets e celulares. E a resolução do conflito não se dá através de uma narrativa de bandidos e mocinhos: os brinquedos eletrônicos que aparecem em Toy Story 5 não são vilões. Alguns aprendem com as crianças, resolvem problemas com elas, criam junto, abrem possibilidades. O problema surge quando a tecnologia vira veículo de bullying, de captura de atenção sem propósito ou de presença que substitui o vínculo real.

Há uma cena que resume bem o argumento do filme. É quando Jenny, a líder dos brinquedos, percebe que o melhor para Bonnie não é tentar vencer sobre a tela, mas entender o que a menina buscava nela: compartilhar os códigos de seus pares e ser incluída. Para isso, é preciso transitar com fluência e com propósito em um mundo que é híbrido, e do qual a tecnologia é parte indissolúvel. As cenas de flashback nos mostram que as infâncias mudam, mas que as crianças podem crescer de forma saudável quando centralizamos as conexões e o afeto.

O filme, enfim, nos chama a modelar uma relação equilibrada com a tecnologia, mostrando que ela pode servir para aprender, criar, resolver problemas, acessar cultura, comunicar-se e participar da vida pública. Mostra que vale a pena fazer pausas, escolher conscientemente onde investir a atenção e perceber quando um aplicativo passa a decidir por nós. Ensina, sobretudo, que as mesmas regras de respeito, empatia e cuidado que orientam a convivência fora das telas continuam valendo dentro delas.

Essa talvez seja a mensagem mais interessante do filme. Não se trata de escolher entre brinquedos e tablets, entre mundo físico e digital. A verdadeira questão não é quanto tempo passamos diante das telas, mas que tipo de relações construímos por meio delas. Se usamos a tecnologia para fortalecer vínculos, ampliar oportunidades e participar da comunidade, ela pode inclusive ajudar a organizar uma vida offline saudável. Se nos deixa mais ansiosos, mais isolados ou mais indiferentes ao outro, é sinal de que perdemos de vista aquilo que realmente importa.

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