A Revolução Francesa do século XXI

A Revolução Francesa do século XXI 550 345 Instituto Palavra Aberta

* Francisco Viana

No futuro, o domingo de 11 de janeiro de 2014 será lembrado como a data da Revolução Francesa dos tempos modernos. Além de 2,7 milhões de pessoas que saíram às ruas nas cidades, mais de um milhão de cidadãos de todas as raças e credos saíram em passeata em Paris, liderada por mais de quatro dezenas de líderes políticos de todo o mundo, entre eles, o presidente François Hollande, a chanceler alemã Angela Merkel e chefes de governo como o italiano Matteo Renzi, o espanhol Mariano Rajoy e o britânico David Cameron.

A multidão, colossal e pacífica, nesse início de século não buscava derrubar a aristocracia como aconteceu em 14 de julho de 1789, mas sim formar uma imensa corrente da humanidade contra o terrorismo e o frio assassinato da redação do jornal satírico Charlie Hebdo. Gritava em coro: “Eu sou Charlie”. Ao todo, em três dias de terror em Paris morreram 17 pessoas inocentes e alguns dos mais relevantes cartunistas franceses e, também, em âmbito internacional.

Os traços que diferenciam presente e passado se multiplicam. No século XVIII, a Revolução Francesa viria a influenciar o mundo, mas não se comunicou com a Revolução Americana, esta à época feita em nome da igualdade de oportunidades, ao contrário da França onde o alvo pretendido era a superação das necessidades. As diferenças políticas formaram compacta barreira e a defesa da liberdade ficou isolada, por séculos.

Agora, a França e os Estados Unidos se somam na defesa da liberdade de expressão e no combate ao terror. O elo unificador se projeta para além do atentado de 11 de setembro às torres gêmeas, em Nova York. Predomina a liberdade democrática, com o livre direito à crítica. Sem romantismo, é oportuno lembrar que a liberdade caminha para ser valor universal e que os caminhos da dominação estão ruindo.

Foi uma nova Revolução, por outro lado, porque o mundo disse não também à Islãfobia e a confusão entre o mundo islâmico e o terrorismo. Em hipótese alguma, tal confusão deve ser feita. A mensagem das ruas demonstra que os cidadãos estão, de fato, formando seus batalhões, a exemplo do que prega a tradicional Marselhesa, mas não para a guerra de credos religiosos – a volta à barbárie –, mas para o avanço civilizatório. O que a passeata disse, simbolicamente, foi: cidadãos, tolerância.

Tolerância é a palavra chave. Por ser herdeiro das luzes, o francês se sente feliz na liberdade e esta, por sua vez, se expressa na crítica sem limites, como deve ser a crítica, na ironia, na irreverência. O Charlie absorveu à perfeição essa herança e criticava a todos, sem exceção. Dela faz parte a critica inclemente às religiões, também herdada das luzes, que não deve ser entendida como ofensa, porém parte do mundo moderno. Não é diferente na América, de alma irreverente. Não é diferente no Brasil onde a mídia revela-se insubmissa.

Ficarão guardadas na memória as imagens de crianças muçulmanas exibindo cartazes contrários ao terror. Ao irem as ruas, com seus pais e amigos, contribuíram para demonstrar que a população islâmica é vítima, não cumplice, do terror. Por esse ângulo, a mobilização se alinha com o direito civilizatório à vida, fazendo da justiça o caminho natural para igualar a humanidade. Esse marco é essencialmente vital na Europa, região com vastas raízes na cultura muçulmana, em especial na França onde cerca de 10 por cento da população cultua a religião do profeta Maomé.

Agora, é aguardar os muitos desdobramentos das manifestações de Paris. A um só tempo, isolou o terrorismo, fortaleceu a liberdade de expressão e tornou a defesa da vida o centro mobilizador da humanidade. Desde já as manifestações na França passam a pertencer à categoria dos grandes acontecimentos da história.

* Francisco Viana é jornalista, consultor e mestre em Filosofia Política (PUC-SP)