Dica da Semana

Dica da Semana 630 345 Instituto Palavra Aberta

* Por Francisco Viana

roberto-civita-_-foto-reproducaoUma biografia para ser lida de um folego só, a despeito das suas mais de 500 páginas. Roberto Civita narra os bastidores da Editora Abril, as histórias e lembranças, e a trajetória desse jornalista que primava pela independência e pela defesa da liberdade de expressão.

Para ser lida de um folego só, a despeito das suas mais de 500 páginas, Roberto Civita, o dono da banca: a vida e as ideias do editor da Veja e da Abril é uma biografia muito bem escrita, recheada de boas histórias e lembranças dos anos 1950, bastidores da editora Abril e da revista Veja. Mostra, por exemplo, a época em que São Paulo era chamada de “terra da garoa” e que “crescia de forma assombrosa”, justamente quando começa a história da Editora Abril, com o lançamento da primeira revista de quadrinhos, O Pato Donald.

Editor e empresário, que lia compulsivamente e amava trabalhar, recitava de cór extensos diálogos de Júlio César, Romeu e Julieta e Macbeth de Shakespeare. Viveu 76 anos. Ajudou seu pai, Victor Civita, ou simplesmente “seu Victor”, como era tratado carinhosamente, a fazer da Abril a maior e a mais importante editora de revistas da América Latina, com o lançamento nos anos 1960 da revista Realidade – uma revolução no jornalismo, ainda hoje lembrada – e de Veja, esta “a maior, mais arriscada e mais bem-sucedida aventura da sua história”.

Em 1990 Roberto Civita sucedeu o pai. Ao todo, foram 45 anos e cerca de 2.300 edições de Veja, “a suprema paixão e sua razão de ser”, argumenta o autor da obra, o jornalista Carlos Maranhão: “orgulhava-se de ter lido, anotado e avaliado cada uma delas, da capa a última página. Ao receber o primeiro exemplar saído da gráfica, ele o segurava firme para avaliar o peso – quanto mais publicidade tinha mais grosso ficava – e dava uma folheada inicial. Os olhos se detinham inicialmente nos anúncios e na apresentação das matérias. Não disfarçava a satisfação de proprietário quando percebia, de relance, que a escolha de determinados assuntos e as angulações tinham seguido sua orientação e irritava-se caso flagrasse logo de cara qualquer erro”.

Era um editor de “convicções inabaláveis”. A livre iniciativa, a democracia representativa, a liberdade de expressão e o liberalismo econômico vinham em primeiro lugar. Não aceitava qualquer tipo de censura e os editores de Veja sempre desfrutaram de plena liberdade. Muitas vezes discordava das posições de Veja e Exame, mesmo exigindo longas discussões prévias. “Para ele, a liberdade de ação de suas publicações seria exercida desde que fosse seguido um prévio entendimento verbal sobre sua postura editorial. Estabelecida a orientação, delegava e acompanhava os resultados. Se não concordava com determinados artigos ou reportagens, deixava claro seus pontos de vista. Não vetava…”, enfatiza Carlos Maranhão.

Combatia a presença do Estado na Economia e na vida dos cidadãos, a burocracia, os regimes autoritários, mas “não gostava de julgamentos e evitava confrontos” e “mostava-se tolerante com quem não pensava como ele, mesmo que inteiramente convencido de que estava certo e os outros errados”. Rejeitava os tabus e, como editor, na visão de Carlos Maranhão, “pregava suas ideias com a convicção de um evangelista”.

“Venerava” a personalidade de Henry Luce, o lendário fundador da Time (1923) e dizia que “o desafio do jornalista era tornar interessante os assuntos importantes e repetiu infatigavelmente que a Abril só tinha compromissos com o leitor e o País, não com governos, anunciantes ou amigos”. Roberto Civita morreu no dia 26 de maio de 2013. No dia seguinte, em uma cerimônia ecumênica, foi cremado ao som de Johann Sebastian Bach, um dos seus compositores favoritos. Deixava cinco mil livros em sua casa e no escritório, três filhos, seis netos e 51 títulos publicados regularmente pela editora Abril, além de entrada no universo digital, os investimentos em Educação e o trabalho de formação e descoberta de talentos.

O último livro que leu foi a tradução inglesa de Meditações, do imperador romano Marco Aurélio, publicado pela primeira vez em 180 d.C., tendo marcado 58 trechos, entre eles um que sugere: “Se não é certo, não faça. Se não é verdade, não diga.”

* Francisco Viana é doutor em Filosofia (PUC-SP)