Liberdade como princípio

Liberdade como princípio 550 345 Instituto Palavra Aberta

* Francisco Viana

A imprensa é a mediação social pelo agir dos homens. Elo que une o mundo das ideias e da realidade histórica, a razão e as tramas do espírito de um povo, constitui a figura da liberdade. Em O ovo da serpente, o cineasta Ingmar Bergman, ao retratar o ambiente da Alemanha antes do putsch hitlerista, assinala: “Os jornais estão repletos de medo, ameaças e rumores”. Não é que acontece hoje jornais brasileiros.

Entre nós, não predomina o temor de um confronto sangrento entre extremistas, como veio a acontecer na Alemanha nazista, e o medo não se ergue como vapor nas ruas. Pelo contrário, na mídia sente-se o destemor das denúncias, a vontade de que a sociedade funcione e a formação da consciência democrática. É um processo lento, às vezes tortuoso, mas inexorável. Os tempos sombrios da censura ficaram definitivamente para trás.

Não há medo, há o otimismo da mudança. Cria-se um processo civilizatório por meio do confronto de ideias que pode ser incompleto, mas existe, que pode despertar críticas e rejeição de uma parte da sociedade, mas que na prática nada envenena, amplia o diálogo. Crescem os espaços de uso da razão, condena-se o caos. E o que é melhor: as pessoas sentem que há futuro e presente na liberdade de expressão.

É comum que tudo fique confuso, que a avalanche de denúncias soe como linchamentos morais. É parte do momento e de uma democracia de grandes massas em gestação. Não é privilégio brasileiro. Olha-se a história da imprensa de países como os Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha e constata-se que os momentos de transições sempre foram íngremes. Nada foi ou é fácil para a mídia. Em parte alguma, a começar pelo fato que o poder ambiciona colocá-la a seu favor e torná-la subserviente.

Mas a verdade dos fatos termina por prevalecer. Isto porque a liberdade de imprensa é imprescindível à liberdade de expressão e à liberdade do Estado. Não foi por coincidência que a liberdade de imprensa nasceu no curso da Revolução Inglesa, exatamente no remoto ano de 1644 quando John Milton a defende em discurso no Parlamento. No Brasil, afirma-se a vontade de participação, existe fé no presente e no amanhã. As pessoas dizem o que pensam, seja nas redes sociais, seja nas mídias tradicionais.

A imprensa, assim, cumpre o seu papel de fiscal do poder. Esse o mundo real: da crítica e da mudança. Pode-se perguntar: o que falta fazer? Muito. Por exemplo, é imperativo que a imprensa amplie os canais de diálogo com os leitores, que procure aumentar a leitura da realidade brasileira, que diversifique as fontes e que, sobretudo, incorpore no dia a dia do noticiário os muitos atores políticos. O modelo de trazer a mídia para o cotidiano do cidadão precisa evoluir cada vez mais.

Nada vai acontecer por acaso. Quanto mais a democracia amadurecer, mais a imprensa irá acompanhá-la ou estará na vanguarda porque a notícia não é estática como um besouro de costas. É dinâmica como a sociedade em movimento e sabe, por experiência, que a verdade se encontra sempre por trás das palavras. Caso contrário, a imprensa estará assassinando a si mesma.

Caminha-se na direção oposta. O sentimento que transpira da mídia é que faca se amola com faca. Não com pedra. Entenda-se a faca como o movimento crítico da sociedade e dos próprios jornalistas que aprendem com a prática; a pedra é como os modelos tradicionais de organizar a mídia que vão, pouco a pouco, ficando para trás. Quaisquer que sejam as mudanças, a sua essência maior é que exista liberdade. Sendo assim, a imprensa torna-se o espírito do seu tempo, refletindo e evoluindo de acordo com o curso dos acontecimentos.

* Francisco Viana é jornalista e mestre em Filosofia Política (PUC-SP)