O desafio de educar para a informação

O desafio de educar para a informação 583 413 Instituto Palavra Aberta
*Daniela Machado

Não há dúvidas de que a tecnologia digital, em especial a internet, tem modificado profundamente nossas vidas, proporcionando novas formas de comunicação, comércio, trabalho e educação. As oportunidades são incríveis, mas os desafios não deixam a desejar.

Se, por um lado, vislumbramos novos formatos de participação social e possibilidade de mais vozes serem incluídas no debate de temas caros ao país; por outro, temos acompanhado a proliferação de discursos de ódio e muita desinformação. Crianças e jovens, em particular, têm interagido com esse ambiente cada vez mais cedo —sem necessariamente terem sido preparados para tal.

Com presença maciça na rede, estima-se que o público de até 18 anos represente, globalmente, um de cada três usuários. Eles acessam a internet principalmente para consumir vídeos e jogos, compartilhar fotos e comentários, conversar com amigos e buscar informações sobre saúde e notícias. No relatório em que apresentou estes e outros dados, o Unicef apontou que o caminho para se enfrentar os desafios impostos pelo mundo conectado é “mitigar os danos e maximizar os benefícios que a internet possibilita para cada criança e jovem”.

É justamente esse duplo desafio que a educação midiática propõe-se a enfrentar, ajudando os estudantes a desenvolver habilidades para acessar, analisar e também produzir informações de maneira reflexiva e responsável. São competências essenciais para lidar com o ambiente de superabundância de conteúdos em que vivemos e dele tirar o melhor proveito. Ainda que haja muitos obstáculos a serem vencidos até garantirmos que todos tenham internet de qualidade, é chegada a hora de pensar além do acesso: como podemos preparar crianças e jovens para uma experiência fortalecedora na rede? Como construir o caminho para que consigam transformar informação em conhecimento e a mera presença em fluência digital?

Não há mais como pensar na escola sem que se discuta como incorporar esses temas a todas as áreas do conhecimento e a todo momento.

“A realidade é que crianças e jovens estão crescendo em um ambiente com mais opções de informação, entretenimento e interatividade que em qualquer outro momento da história. Criar, participar e se comunicar nessa trama onde tantos fios (confusamente) se entrelaçam passou a ser parte da vida de diferentes gerações com recursos e graus de escolaridade bastante diversos”, destaca o Guia da Educação Midiática, uma produção do EducaMídia que apresenta conceitos e práticas de educação midiática para educadores e gestores. “Sem as habilidades para acessar, analisar, refletir criticamente sobre informações recebidas e enviadas para a tomada das melhores decisões em temas cotidianos relacionados a saúde, trabalho, política e entretenimento, seremos privados de uma participação ativa, positiva e consciente no mundo.”

Tais competências fazem parte de uma visão expandida da alfabetização e precisam ser encaradas como um direito do estudante. Diversos pesquisadores e organizações veem o letramento midiático como um componente fundamental na escola —e na vida. A pauta está na agenda da Unesco desde a década de 1980 e, no Brasil, um interesse crescente surgiu por parte de professores, entre outros motivos, com a promulgação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Nada indica que o rápido desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação ou o fluxo de informações a que estamos expostos serão freados —pelo contrário. É neste contexto que devemos nos perguntar: como as escolas têm se colocado neste mundo em que o aprendizado não tem mais lugar ou horário definidos para acontecer e os papéis de alunos e professores são (ou deveriam ser) outros?

 

*Daniela Machado é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta.

Imagem: Marco Garro / The New York Times