A tecnologia não substituirá o professor

A tecnologia não substituirá o professor 1024 718 Instituto Palavra Aberta
Mariana Mandelli*

Imagem: Bermix Studio/Unsplash

Empregos ameaçados, carreiras em extinção: a ideia de que as máquinas tomariam o trabalho dos humanos nos aterroriza desde que o capitalismo industrial passou a reger o sistema econômico do século 18. Com os sucessivos avanços tecnológicos que nos trouxeram até aqui, muito se falou –e ainda se fala– sobre a escola estar obsoleta, descolada dessa realidade veloz e, portanto, incapaz de formar crianças e jovens para viverem nesse mundo midiatizado em transformação constante. Os professores seriam, então, uma das profissões que logo sumiriam, afinal, hoje qualquer um pode aprender sozinho: basta ter acesso à internet para explorar o conhecimento infinito disponível na rede.

A pandemia do novo coronavírus, no entanto, nos mostrou que a coisa não é tão simples assim. Alunos em casa, famílias despreparadas e um cenário de desigualdade social profunda são variáveis de uma equação de difícil solução para um país como o Brasil. A figura do professor mostrou-se, em diversos níveis, o quanto segue sendo essencial para o desenvolvimento de competências e habilidades importantes para a vida presente e futura dos estudantes.

O que vemos acontecer neste ano de 2020 é mais ou menos o que pesquisador e escritor britânico David Buckingham, um dos maiores especialistas do planeta na área de mídias e educação, vem falando há alguns anos. Ele costuma questionar a ideia de que a escola esteja ultrapassada e que, assim sendo, seu fim como instituição social basilar estaria próximo. Ao contrário: na opinião dele, sem ela e, claro, sem os professores e demais profissionais, estaríamos desperdiçando a chance de apoiar os estudantes na elaboração de conhecimento e cidadania para o mundo conectado.

O que Buckingham quer dizer, em linhas muito gerais, é que os educadores devem ter um papel proativo na construção da cultura digital, o que ganhou outros contornos em tempos de ensino remoto. A ideia de que os indivíduos nascidos nos últimos anos seriam “nativos digitais”, como cunhou outro escritor, o americano Marc Prensky, precisa ser pensada de modo crítico: não é porque a tal geração Z praticamente nasceu nas redes sociais que ela sabe o que fazer com os benefícios e malefícios dessa conexão. O empoderamento digital não é algo “automático”.

Ou seja: preparar as crianças e os jovens para aprender com senso crítico e responsabilidade no século 21 não é missão de nenhuma inteligência artificial, mas sim de seres humanos. Se o mundo fica cada vez mais complexo, como desenvolver neles habilidades para ler a realidade e solucionar os problemas da sociedade conectada?

É justamente aí que entra o professor, essa carreira tão sobrecarregada e desvalorizada no Brasil: eles recebem, em média, metade do salário de um docente do ensino médio dos países que formam a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Também ganham, segundo dados de 2019 do Todos Pela Educação, cerca de 71% da média salarial de profissionais com a mesma escolaridade.

Não se trata de colocar nas costas dos educadores mais uma atribuição. É preciso repensar a formação docente, uma questão amplamente debatida por pesquisadores brasileiros há décadas. As críticas de especialistas como Bernardete Gatti, referência nacional no tema, mencionam o modelo e a qualidade dos cursos superiores, que não preparam o professor para a realidade da sala de aula.

Tal reformulação, porém, não pode estar desassociada da educação midiática. Se antes o constructo intelectual da educomunicação, imprescindível para qualquer debate sobre as mídias na escola, era visto como algo à parte, agora é preciso fazer com que essas ideias apareçam como uma camada a ser adicionada nas práticas pedagógicas. Essa é a realidade de estudantes e educadores que precisa ser espelhada na formação do professor.

Isso porque estamos falando de um debate mais amplo do que a implementação das tecnologias no processo de aprendizagem. Para formarmos alunos e alunas que saibam “argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável”, como demanda a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), não podemos ignorar o ambiente digital.

Ainda mais se considerarmos que o Brasil é um dos países onde mais se acredita em “fake news”: de acordo com uma pesquisa da consultoria Ipsos divulgada em 2018, 62% dos brasileiros já acreditaram em uma informação falsa disseminada nas redes sociais.

Pode parecer difícil iniciar essa discussão em um País em que 16% das escolas públicas não dispõem de banheiro dentro do prédio e 49% não estão ligadas à rede de esgoto, segundo dados do Censo Escolar de 2018. Mas é um debate inadiável se pretendemos formar cidadãos e cidadãs que saibam consumir informações com responsabilidade, combater discursos de ódio, detectar os diversos tipos de desinformação e valorizar a ciência e a democracia. E, para formá-los, precisamos antes formar, apoiar e valorizar nossos professores, profissão fundamental ontem, hoje e sempre no desenvolvimento de um País melhor.

*Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.