
Currículo de educação digital e midiática depende da autoria docente
Currículo de educação digital e midiática depende da autoria docente https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/rvsa-abr-1409210335-1024x683.jpg 1024 683 Instituto Palavra Aberta https://www.palavraaberta.org.br/v3/images/rvsa-abr-1409210335-1024x683.jpgBruno Ferreira, coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta
Vinte estados brasileiros já atualizaram seus currículos para contemplar a educação digital e midiática, segundo dados do Ministério da Educação (MEC), divulgados no webinar “IA na educação básica: caminhos para o currículo e a prática docente”, realizado em 8 de abril. Trata-se de um conceito emergente que articula diferentes perspectivas sobre o uso e o estudo das tecnologias digitais e das mídias na educação básica. Outros quatro estados estão com seus currículos em fase de aprovação nos Conselhos Estaduais de Educação, e três ainda estão em fase de elaboração.
Esse avanço normativo, no entanto, representa apenas o primeiro passo para que estudantes de todas as etapas da educação básica tenham condições de refletir criticamente sobre as complexidades e os dilemas do mundo digital no cotidiano. Documentos estaduais que listam habilidades relacionadas às tecnologias e às mídias não são suficientes para garantir ensino e aprendizagem sobre esses temas. E ainda são poucas as ofertas de formação docente que favorecem uma prática pedagógica autônoma em educação digital e midiática.
Dados da última pesquisa TIC Educação mostram que os professores da educação básica ainda estão construindo saberes sobre o tema, mas a maior parte das formações ofertadas ainda é de caráter instrumental e, portanto, inadequada para enfrentar o desafio de ensinar sobre mídias e tecnologias. Cerca de 44% dos docentes ouvidos afirmam que os cursos de que participaram se concentraram em ferramentas digitais. Apenas cerca de 36% relataram ter tido uma formação mais crítica, no campo da educação midiática.
No atual cenário de curricularização das mídias e das tecnologias digitais, é fundamental ampliar a compreensão sobre a formação docente nesse campo. Em vez de funcionar como espaço de adesão a ferramentas ou normas pensadas por especialistas e governos, de fora para dentro da educação, a formação de professores precisa ser um espaço de construção coletiva do currículo.
Ainda que os docentes da educação básica tenham pouco repertório formal sobre os campos da comunicação, da informação e da computação, esses profissionais lidam cotidianamente com as tecnologias como cidadãos imersos nas redes e na internet. Além disso, são eles que conhecem as realidades dos estudantes e dominam o conhecimento escolar, que é diferente do saber especializado. Suas vozes são fundamentais para definir, junto a especialistas e gestores públicos, como concretizar os saberes midiáticos e digitais em práticas pedagógicas viáveis, em diálogo com seus repertórios e com as condições materiais de suas escolas.
Não por outra razão que a primeira oferta do curso Educação midiática no currículo escolar: construindo bases, oferecido pelo programa EducaMídia, do Instituto Palavra Aberta, a gestores e lideranças educacionais responsáveis pela elaboração de currículos de educação digital e midiática, enfatizou a necessidade de construir um plano de ação para a implementação do currículo, em vez de apenas contribuir para a redação de um documento oficial que, por si só, não produz transformação.
O percurso formativo de 45 profissionais da educação, finalizado em 14 de abril, buscou sensibilizar os participantes para a importância de fazer da formação continuada de professores um espaço contextualizado, empático e voltado ao exercício da autoria e do protagonismo docente. Trata-se de possibilitar que professores aprendam sobre mídias e tecnologias a partir de suas realidades, problematizem e recriem prescrições curriculares segundo as especificidades de seus territórios e construam soluções próprias de ensino e aprendizagem.
Mais do que incorporar novos temas aos documentos oficiais, a consolidação da educação digital e midiática na escola depende de reconhecer os professores como sujeitos centrais desse processo. É na formação continuada, entendida como espaço de escuta, reflexão e construção coletiva, que o currículo pode deixar de ser mera prescrição e se transformar em prática viva, contextualizada e socialmente relevante.