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As mulheres na Copa do Mundo dos homens

As mulheres na Copa do Mundo dos homens 1024 546 Instituto Palavra Aberta

Mariana Mandelli é coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

Quando a partida entre Bélgica e Egito, válida pelo grupo G, teve início no último dia 15, o jogo não marcou apenas a estreia dessas duas seleções na maior Copa do Mundo FIFA de Futebol Masculino de todos os tempos. Foi também a primeira vez que uma mulher brasileira narrou, diretamente do estádio e para a televisão aberta, um confronto entre duas seleções no torneio. O marco histórico é de Renata Silveira, pela Rede Globo, profissional que está na emissora há cinco anos.

No mundial masculino anterior, ela já havia se tornado a primeira mulher a narrar uma partida para a TV gratuita — na ocasião, ela realizou a transmissão de Dinamarca x Tunísia e de outros confrontos nos estúdios da Globo, e não in loco como agora. Também foi a primeira a liderar a narração de um jogo da seleção brasileira masculina na emissora. Sua trajetória, que teve início na Rádio Globo em 2014 ao vencer o concurso “Garota da Voz”, tem aberto portas para outras mulheres, como Natália Lara, da SporTV.

É notável, nos últimos anos, a presença de mais mulheres nas equipes esportivas da mídia em geral. Seja na televisão aberta, no YouTube ou no streaming, a maior parte das transmissões conta com ao menos uma profissional reportando, comentando ou narrando futebol e outras modalidades.

Já olhando para dentro de campo, a 23ª edição da Copa do Mundo masculina também traz números importantes da presença profissional feminina. Assim como na Copa anterior, no Catar, a equipe de arbitragem conta com seis mulheres. O jogo entre República Tcheca e África do Sul, no último dia 18, contou com um trio integralmente feminino pela segunda vez na história: Tori Penso, Brooke Mayo e Kathryn Nesbitt repetiram o feito de 2022 de Stéphanie Frappart, Neuza Back e Karen Díaz Medina.

Apesar das boas notícias, é óbvio que o caminho é longo. E árduo: na mesma semana em que comemoramos a conquista de Renata Silveira, vimos a apresentadora Fernanda Gentil passar por uma situação constrangedora: ouvir, ao vivo, de um jogador tetracampeão mundial (e senador da República) a frase: “quem não conhece muito de futebol vai ter esse pensamento que você tem”. Ainda que a jornalista tenha minimizado o ocorrido e o ex-atleta a tenha elogiado posteriormente, é fato que a cena desvaloriza e diminui o conhecimento de uma das maiores jornalistas esportivas do País.

A própria Renata Silveira é obrigada a desmentir, vez ou outra, conteúdos manipulados com a sua imagem e voz, que atribuem a ela erros de informação e performance. Além dos comentários de ódio que comumente recebe nas redes sociais, ela e outras profissionais da área precisam lidar com campanhas de difamação que nada mais são do que violência de gênero.

Ainda que o caminho para a equidade na imprensa esportiva seja extenso, é necessário comemorar cada pequeno passo. Afinal, é fato que a Copa do Mundo masculina é um megaevento esportivo que movimenta números gigantescos e envolve cifras bilionárias, mas também cria memórias afetivas em cada um que se envolve no clima do mundial, especialmente nas crianças e adolescentes que estão vivenciando essa experiência pela primeira vez. Que eles possam, então, guardar lembranças de vozes de mulheres narrando os jogos desta Copa — e que possam se empolgar e se inspirar também com mulheres jogando futebol no ano que vem, quando o Brasil sediará, pela primeira vez, a edição feminina do torneio.

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