IA na busca: entre a ilusão da resposta pronta e o desafio do pensamento crítico

IA na busca: entre a ilusão da resposta pronta e o desafio do pensamento crítico 1024 683 Instituto Palavra Aberta

Daniela Machado é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

A inteligência artificial generativa tem remodelado a maneira como buscamos informações na internet, levantando uma questão crucial: essa transformação torna a pesquisa mais fácil ou mais complexa? Para entender o impacto, basta um simples experimento. Abra um buscador e digite: “O que se sabe sobre a presença de dinossauros no Brasil?”.

No caso do Google, o resultado que aparece em destaque, no topo da página, é um texto aparentemente coeso, gramaticalmente bem elaborado e feito sob encomenda para reunir em um só lugar diversos dados capazes de satisfazer a curiosidade do pesquisador. Trata-se da “visão geral criada por IA”.

Logo abaixo, encontramos a página “tradicional” de resultados da busca — uma lista de links identificando fontes e endereços eletrônicos. A resposta não está necessariamente pronta: demanda cliques, consulta a pelo menos uma das páginas sugeridas e participação ativa do pesquisador, responsável por dar sentido aos fragmentos de informação encontrados. É como costurar uma colcha de retalhos.

Assim, à primeira vista, a busca com IA parece a solução para todas as nossas perguntas. Mas é justamente a tentação de se contentar com uma resposta pronta e supostamente final que exige discussão mais aprofundada. A facilidade esconde desafios que merecem nossa atenção: como podemos avaliar a confiabilidade das informações quando as fontes não são tão evidentes? Como praticar o ceticismo saudável diante de um resultado que parece tão coerente e bem acabado?

Quanto mais fluente e polida é a resposta gerada pela IA, mais invisível se torna sua construção. “Se não fizermos uma pausa para perceber isso… vamos confundir fluência com verdade e coerência com evidência”, alerta o filósofo da tecnologia Sune Selsbæk-Reitz em um interessante artigo publicado no perfil do Linkedin que discute como o ato de pesquisar precisa de atrito, de um certo trabalho, que é inseparável do processo de construção de conhecimento. Assim, a pausa, a dúvida, o olhar crítico e a formulação de novas perguntas são elementos inseparáveis da construção do conhecimento.

Outra preocupação relevante é o impacto da busca com IA sobre a realidade fundamental compartilhada pela sociedade. Modelos de linguagem podem inventar informações, usar fontes de confiabilidade questionável e produzir respostas totalmente diferentes para a mesma pergunta em pesquisas distintas. Além disso, podem apresentar respostas personalizadas para diferentes usuários, com base no que a IA sabe sobre cada um. Mat Honan, editor-chefe da MIT Technology Review, adverte que isso pode significar o “fim da resposta canônica”, como ele destacou em seu artigo “AI means the end of internet search as we’ve known it” (“IA significa o fim da busca na internet como a conhecemos”, em tradução livre), publicado em janeiro.

Um terceiro ponto de atenção reside no fato de que uma resposta com “cara de pronta” desmotiva cliques, reduzindo o tráfego e o retorno financeiro para sites jornalísticos e outras fontes originais de informação. E as coisas nessa esfera já não andavam promissoras: um levantamento da SparkToro (ferramenta de análise de audiências online) revelou que, entre janeiro e maio de 2024, para cada 1.000 buscas no Google, apenas 374 geravam cliques na União Europeia e 360 nos Estados Unidos.

É inegável que as ferramentas de busca de informação continuarão a evoluir, e a pesquisa com IA apresenta vários aspectos positivos. No entanto, algo essencial deve permanecer inalterado: a habilidade e a disposição para interrogar os conteúdos encontrados, reconstruir seu contexto, reconhecer suas fontes, identificar as vozes presentes e as perspectivas ausentes. Independentemente do instrumento utilizado, o ato de pesquisar informações sempre demandará intenção e profunda reflexão.

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